Entrevista Semi-Aberta com Carlos A. Côrrea Leite

 

              O seu grande trabalho prestado no Município de Ivinhema fundado em 1963, que esse ano vai para 49 anos, e que o Senhor teve a grata satisfação, que nós acreditamos de ser o primeiro prefeito, que deixou o seu marco histórico, além disso, nós queremos mais tarde deixar publicado em forma de registro, que nós tivemos a oportunidade de viajar 350 km, nesta sexta-feira dia 20 de maio de 2011, para estarmos aqui em sua residência.

Começamos a nossa entrevista com o senhor Carlos Côrrea Leite.

P: Sua filiação?

R: Meu pai se chamava Francisco José Leite, ele era militar. E minha mãe se chamava Maria Côrrea Leite.

P: Qual a sua data de nascimento?

R: 26 de março de 1932.

P: Local de nascimento?

R: Aquidauana, antigo Mato Grosso.

P: Nome da sua esposa?

R: Marina Côrrea Gazola Leite.

P: O senhor tem filhos?

R: Sim, três: Cristina Helena Gazola Leite Tavares, Silvia Helena Gazola Leite Ferrari, Carlos Henrique Gazola Leite.

P: Qual sua formação escolar?

R: Sou formado em técnico em contabilidade, cursei em Presidente Prudente.

P: Onde o senhor residiu depois de formado?

R: Eu trabalhava como bancário, desde Aquidauana, ao convite do Reynaldo Massi, acabei indo para casa bancaria em Nova Esperança, no Paraná, quando ele vendeu a casa bancária, ele me ofereceu em Curitiba, mas optei por Ivinhema, fui pra lá como funcionário da Someco.

P: Sabemos que muitos foram nesse período para Ivinhema, e poucos ficaram. Como foi sua impressão do local?

R: Fiquei entusiasmado, eu achei que ali, nós iríamos crescer junto com o lugar, nós abraçamos o projeto.

P: O senhor se lembra das primeiras pessoas que fizeram contato com você em Ivinhema?

R: Me lembro que tinha o Benedito Ferreira, o Paulo Rodrigues, o Pieretti com sua família, e o Plínio Bonilha.

P: O senhor se lembra do Nelson Cardoso?

R: Sim.

P: O senhor conhece o Chico Farias?

R: Foi cabo eleitoral do Luiz Grande.

P: O senhor chegou a conhecer a família Simões, de Amandina?

R: Não, só o seu Sebastião Vaz de Melo.

P: E seu Zeumo Simões, um dos fundadores de Amandina?

R: Não.

P: O senhor teve dificuldade de adaptação?

R: Não, alias, eu nunca tive dificuldade de adaptação em nenhum lugar que eu vou.

P: O senhor se lembra como que era o meio de comunicação?

R: Para nos tinha o rádio amador da SOMECO, fora isso não tinha outro.

P: O senhor se lembra se tinha ônibus?

R: O ônibus foi mais tarde, a aviação MOTTA, através do Orlando Motta que esteve lá, ai ele criou a primeira linha que ligava Ivinhema. A Cida foi a primeira agente da aviação MOTTA.

P: O senhor se lembra se funcionava o correio?

R: Não tinha correio.

P: E o transporte como era?

R: Era feito através de condução da Someco, mais tarde então veio à linha de ônibus, então passou a ter acesso a vários lugares.

P: Quando o senhor morava em Ivinhema, como era o meio da travessia do Rio Ivinhema?

R: Balsa.

P: O senhor se lembra da inauguração da ponte do Rio Ivinhema?

P: Sim. O Governador Fernando Côrrea da Costa reservou uma verba para Ivinhema, com essa verba, o trabalho da Someco, os fazendeiros e o pessoal por lá, eles conseguiram fazer a ponte do Rio Ivinhema, que foi inaugurada pelo Pedro Pedrossiam. Nessa ocasião, ele recebeu de brinde, uma ponte em miniatura em ouro maciço, naquele dia foi inaugurada a maior ponte de madeira do Mato Grosso do Sul.

P: Você se lembra quem deu essa ponte em miniatura ao Governador?

R: O Reynaldo Massi.

P: O sistema elétrico, como era?

R: Era fornecido através da Piravevê, que era a parte comercial da Someco. A Someco era a colonizadora, a piraveve era a parte comercial, e ela tinha um motor, agora eu não sei se ela fornecia para toda cidade, ela fornecia mais para a administração do comércio. Mais tarde montaram a Usina Termo Elétrico, ai passou a fornecer pra mais pessoas da cidade.

P: E sua vida social, o senhor pescou muito no Rio Ivinhema?

R: Não, não era muito de pescaria.

P: O senhor se lembra se tinha bailes?

R: Sim. Tinha forró, eu sempre dava aquela sacudida por lá.

P: Em que ano o senhor chegou em Ivinhema?

R: Eu cheguei em 63/64.

P: Qual foi sua primeira atividade profissional?

R: Eu cheguei para trabalhar como contador na Someco.

P: Existia dificuldade pra exercer a profissão, faltava recurso?

R: Não, nessa parte não faltava, a Someco era bem equipada.

P: Como pessoa e empreendedor, o que o Senhor tem a dizer do Saudoso Reynaldo Massi?

R: Um bom homem, dinâmico, morreu cedo, empreendedor, empresário, administrador.

P: O que levou o senhor a ingressar na política?

R: Foi criado o município, eu acho que Mato Grossense, e eu achávamos que eu era político, eu achava que me entendia político. Mas ai como nos estávamos dispostos a trabalhar, tinha que haver alguma maneira de ajudar o município, a minha intenção foi essa desde primeira candidatura, tentando trazer as coisas para nosso município.

P: Então o seu primeiro mandato já foi por eleição?

R: Sim, tomando conta tranqüilo.

P: E o senhor se lembra quem era o pessoal da sua equipe?

R: O primeiro secretário foi Alfredo, tinha o Benosse, que também trabalhava na prefeitura, o Elte, o Antônio Barros Cavalcanti, que era vereador, e cuidava da parte de roçada da cidade, conservar ela limpa.

P: O senhor se lembra do Otacílio dos Santos como vereador?

R: Foi um pequeno compositor nosso.

P: Onde foi instalada a primeira prefeitura?

R: Foi ali mesmo, e esse prédio foi feito pela Someco, que era o compromisso dela com a criação do município.

P: E como foi montada? Quem deu mobiliário?

R: Tudo foi a Someco que montou, foi um compromisso dela, junto com o Deputado Marquinho Marques.

P: O Senhor se lembra de alguma Lei que o senhor sancionou no município?

R: A externei da Bandeira, mais do Estado do que do Brasil, há do município não tinha ainda.

P: O senhor chegou a fazer um sucessor?

R: Sim, o Luiz Grande.

P: E o senhor se lembra se chegou ater adversário político?

R: Não, não me lembro quem era, mais dessa vez teve uma briga boa.

P: Qual a importância da experiência como prefeito na sua vida?

R: Eu tive bastantes contatos, tive ocasião de fazer muitas viagens, devido a uma unificação eu tive três anos de mandato.

P: No segundo mandato, o senhor já pôde contar com mais recursos, como foi?

R: Foi visto como um município que tinha um grande futuro, soja, tinha também a pecuária e isso deu uma margem boa de CM.

P: Então nessa segunda candidatura, o senhor já foi mais tranqüilo, com experiência, teve adversário político?

R: Teve três adversários por oposição dos companheiros, pois eu era o único a bater de frente com o Frederico, ele saiu de Ivinhema como vencedor, ele tinha tanta confiança que ia ganhar que saiu como vencedor, e pra sua surpresa, ele saiu festejando e nós voltamos festejando. Foi ai então que entrei para o segundo mandato com intenção de parar ali.

P: No mandato dos vereadores, o senhor estava com o seu Poço Benizar, seu Vitor Ferrari, Antenor Vargas, e Domingos Nogueira e Benedito Ferrari?

R: Antenor Vargas era oposição minha.

P: Então o senhor falou que o Frederico saiu comemorando e o senhor voltou comemorando, o que o senhor quis dizer com, saiu e voltou?

R: Nós fomos pra apuração.

P: Onde era a apuração?

R: Em Nova Andradina.

P: O comentário do senhor em relação ao sistema de votação?

R: O sistema de votação era bem sujeito a fraude essas coisas, não lá em Ivinhema, porque lá todo mundo conhecia todo mundo, era difícil, hoje é muito mais difícil, o tal do computador é chato pra burro.

P: Depois desse período administrativo, e que o senhor terminou o segundo mandato, o senhor foi embora de Ivinhema?

R: Logo que eu terminei o mandato e sai exatamente pra deixar a política, o coração já tava triste. Eu morria por Ivinhema, então o desgaste foi muito grande, e agente via político que chegava lá, vinha fazer visita com agente, depois saia e ia pra outro. Tudo aquilo era intriga, sai de lá por causa disso mesmo, fugi, larguei tudo pra traz, não sei se algum dia, parece que alguém falou que eu roubei bastante para ir embora. Honestamente, eu não lembro de ter roubado. No primeiro mandato às vezes, eu até não tirava todo o meu salário, porque não tinha o suficiente. Como eu era considerado pão-duro, nunca gastei mais do que ganhava. Na prefeitura, a mesma coisa, há não ser dividas que eram programadas já com verbas reservadas, propagandas e em jornais. Essas coisas todas, os jornalistas chegavam lá, era aquela briga porque eles queriam fazer uma folha inteira, e eu queria um pedacinho, dentro das possibilidades do meu município, porque não adianta fazer propaganda sem dinheiro.

P: E a fonte de arrecadação, era só do Estado?

R: Não, no primeiro mandato sim, no segundo mandato entrou a modificação do CM, a participação do município também, tanto é que essas maquinas que foram adquiridas no final do meu mandato, foram em função do índice de participação do município, que o ministério do planejamento mandou. Pá carregadeira, um trator de esteira, um trator pra carregar lixo, uma carreta. Negado o pedido por dois bancos, fui a Brasília, disseram que não tinha índice de participação. Pedi o projeto, e disse que tinha uma entrevista com o ministro do planejamento, pra pedir que ele mandasse as porcarias das maquinas. Então o gerente falou que iam considerar. Me ofereceu água, café, mudou completamente o tratamento. Cinco dias depois, o projeto foi aprovado, eu sei que nessa parte de política administrativa, estava certinho, havia muita confiança, eu saia e os vereadores tomavam conta, e foi assim que eu consegui essas maquinas, comecei transportar calcário, e fiz aquilo que tinha que ser feito.

P: O senhor se lembra se tinha uma sistema de coleta de lixo?

R: A coleta de lixo começou exatamente quando nós recebemos esse trator e essa carreta, inclusive, eu fui chamado de prefeito burro, porque não cobrava a coleta de lixo, agente arrecada, mais tem que devolver algo ao município.

P: E na questão da educação, o Senhor se lembra se era feito o transporte de alunos?

R: Não me lembro, porque o sargento procurava organizar a escola pra mais perto, a Someco criou o núcleo central. Então não havia transporte, o transporte que começou foi o desse policial, que era feito de ônibus particular.

P: Próximo da sede da Someco tinha um poço da Someco?

R: Não, aquele é da prefeitura.

P: Depois que o Senhor veio pra Presidente Prudente, o senhor manteve contato com alguém de Ivinhema?

R: Eu sempre procurava, mesmo com a distancia, eu tinha Ivinhema no coração.

P: E o senhor se lembra de algum comércio que estava em ascensão?

R: Não, naquele tempo o forte de Ivinhema era a serraria, maquinas de arroz, o Macaca tinha um armazém muito bom.

P: O senhor se lembra da casa Bonilha, do Plínio?

R: Sim, ele se instalou na parte que era um acampamento, ele tinha um armazém ali.

P: Seu Carlos, qual era o apoio que a Someco, por ser colonizadora, queria desenvolver no município, qual era o apoio que ela dava?

R: De principio, quando agente necessitava de alguma coisa, por exemplo, qualquer coisa que o município precisasse, agente ia solicitar. Agora eu evitava ao máximo esse relacionamento Someco e Prefeitura, só quando não tinha jeito mesmo.

P: Qual foi a última passagem do Senhor pelo município de Ivinhema, á muito tempo ou pouco tempo?

R: Não, foi quando o Osvaldo fez 50 ou 60 anos, faz tempo, eu procurei me afastar ao máximo.

P: Nós fizemos uma entrevista com o Reynaldo Massi Filho, ele disse que em uma das caçadas que o Senhor fez com o pai dele, perguntaram “por que o senhor em vez de estar se divertindo, o senhor está lendo este livro?” E ai o senhor respondeu, “é que o seu pai me disse que pra eu ser prefeito de Ivinhema, eu precisava ler este livro”, e o senhor lembra que livro era esse?

R: Não, eu não me lembro disso, quando eu ia pescar, eu levava meus livros de faroeste, nada de livros de administração.

P: O senhor se lembra de alguma coisa inusitada que aconteceu? Consta no registro de umas atas que um vereador, o Benedito Ferreira, fez um encaminhamento ao senhor prefeito, que resolve o problema do cemitério, porque não era possível enterrar mais pessoas em Amandina. O senhor se lembra o porquê disso?

R: Não, não me lembro não do cemitério, eu só me lembro iam uni formalizar os túmulos, mas não deu certo.

P: Seu Carlos, estamos aqui encerrando a nossa entrevista, nós nos sentimos contemplados, realmente com grande satisfação.

R: Essa grande satisfação é mais minha, é a primeira vez que eu resolvi falar sobre Ivinhema.

P: Para nós chegarmos naquela Ivinhema de 22 mil habitantes, foi uma história que o senhor plantou, que o senhor trabalhou, porque era momento muito difícil. E isso que nos levou a deslocar 360 km, para deixar registrado. Ainda faço uma pergunta. Ivinhema foi fundada em 11/11/1961, o senhor só assumiu a prefeitura em 24/04/1965, o senhor se lembra porque desse espaço, porque que não correrão atrás de colocar um prefeito nesse período?

R: Não, eu não me lembro, porque era aquela luta pra saber se naquele ano, iria ter eleição, ou se era no outro ano. E o município era vinculado a Dourados, quando passou pra Nova Andradina na Comarca. Já que esta falando em encerramento, eu quero deixar uma mensagem, "antes de morrer eu quero visitar Ivinhema pra saber como é que ela esta, antes de morrer eu quero ir lá, um dia eu apareço, pode ser que eu faleça, mais simplesmente quero vê, já que não tenho mais nenhum amigo por lá.”

P: Nós estaríamos de grata satisfação em recebê-lo no município.

R: Vou lá pra saber, pra matar a minha saudade, por isso nós trabalhamos por isso, nós sofremos tantas coisas nessa vida, o senhor não queira saber o que eu pessoalmente sofri lá, esse sofrimento, eu quero um dia ter a satisfação de ver que realmente Ivinhema é, aquilo que nós pensamos em fazer.

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