Entrevista Semi-Aberta com Zeuno Simões

 

Estamos aqui em São Paulo, dia 29/04/1999, na casa do seu Zeuno Simões, acompanhado pela professora Elaine Cristina e da acadêmica Aline Gonçalves. Nesse momento nós passamos a entrevista-lo, um dos pioneiros da região de Ivinhema, que mais precisamente, entrou na região de Amandina.

P: Seu Zeuno, o senhor pode descrever para nós como é que o senhor chegou em Amandina?

P: Foi em 1951.

P: Nesse momento, o senhor comprou propriedade lá?

R: Sim, meu pai comprou, e passamos para os filhos.

P: O senhor se lembra como foram adquiridas essas terras, se foi comprada e como foi o processo?

R: Foi comprada da associação de terras que era em Dourados, foi feito o lote de 10 mil equitares a cada interessado.

P: Quando vocês chegaram a Amandina, existia uma colonizadora lá?

R: Já tinha saído a mate laranjeira, que explorava mate na região.

P: O senhor chegou a conversar com alguém da companhia mate laranjeira?

R: Não. Eles já tinham se retirado da região, não tinha mais ninguém.

P: Quando o senhor entrou, era área totalmente fechada?

R: Não, só era medida, o engenheiro media a área do rio Piravevê até o rio Guiray, e foi fechando o perímetro, e daí ele dividiu os lotes pelas picadas em cada lote, e demarcou, e entregou pra cada um dos filhos de Armando Simões. Meu pai.

P: Esse pessoal que fazia essa demarcação, era de Dourados?

R: O engenheiro era de Campo Grande.

P: Mas era comandada por Dourados?

R: Se adquiria em Dourados, mais o pagamento era feito em Campo Grande.

P: Vocês chegaram lá com objetivo de fazenda, não de colonização?

R: A intenção era plantar café na região, que havia alguns pés deixados pela mate, então foi feito o mapa de Amandina, registrado, e onde começou as fazendas, as aberturas dos lotes.

P: O primeiro meio de transporte da região era barco?

R: Sim.

P: Seu Zeuno, nessa divisão de terras que seu pai fez, teve alguém que fora dos irmãos que foi trabalhar nessa região e fez parte dessa História?

R: Não, foram primos e irmãos. O Calbi Lopes Meir, o Álvaro Blex e o Fausto Simões, foram os que chegaram também na região.

P: Vocês utilizavam barco, e posteriormente vocês retornavam já por estradas?

R: Pra atravessar, nós caminhávamos na margem direita do Ivinhema, depois pra ir pra São Paulo, tinha que passar pela margem esquerda, então nós fizemos uma balsa movida a motor, e campo de avião só, essa balsa funcionava na fazenda São Luizinho.

P: O senhor se lembra quando começou a abertura dessas fazendas?                             

R: Em 1952 ele começou formar pasto lá, o único que plantou café fui eu, depois fiquei só com pasto, plantação de milho, algodão, diversos seriais, arroz, feijão.

P: Nessa época seus filhos e sua esposa moravam com o senhor na sua residência aqui?

R: Moravam em Santos, eu era corretor de café lá.

P: Então o senhor ficava temporariamente lá?

R: Ficava a cada 60 dias.

P: Por que o nome Amandina?

R: Por que de Armando Simões, meu pai.

P: Na região, no primeiro momento, o senhor chegou a ver índios?

R: Não, nunca vi. Tive empregados índios, inclusive bons campeiros, eles vinham da região de Dourados.

P: E as primeiras estradas, quem abriu?

R: Fomos nós quem pagamos. Nós pagamos também em Gloria de Dourados na fazenda, é porque nós queríamos fazer estradas de Gloria até Ivinhema, porque de Gloria de Dourados até Dourados tinha estrada já, então eles queriam ligar até Ivinhema, antes da Someco fazer Ivinhema, ela reuniu lá médicos, fazendeiros, negociantes, dentistas, todas as pessoas da cidade ajudaram a fazer essa estrada, e eu cooperei também pra fazer essa estrada.

P: A imobiliária Sul Mato-grossense não tinha vinculo com a família Simões?

R: Sim, porque meu irmão era sócio.

P: Teve conflitos de terra na região?

R: Sim, um Senador do Rio de Janeiro, Valdomiro Silveira, ele requereu encima das glebas, mais o mapa dele era errado, então nós ganhamos a questão e pagamos uma indenização a ele.

P: Em seguida, quais foram as pessoas que se instalaram na região de Amandina?

R: Zezi, e outros fazendeiros em outros lugares.

P: O senhor Victor faz tempo que ele mora lá em Amandina?

R: Veio os portugueses pra fazer o começo de Amandina, pra fazer escola, hotel, e os carpinteiros trazidos de Marilia, e nessa ocasião, pra tomar a serraria, vieram de Portugal o senhor Manoel Marques e sua esposa, com dois filhos pequenos.

P: Foi construída uma escola lá?

R: A primeira professora foi Nicinha, sobrinha do Celso da imobiliária, José Alves de Melo, filho do Sebastião Vaz de Melo.

P: E como era tratada a saúde?

R: Os americanos mandaram aquelas turmas de HC, para matar mosquito e distribuir remédio pra malária.

P: E na época como era a questão religiosa?

R: Havia mais crente, porque o seu Manoel Marques morava em promissão, e era crente, então ele organizou a igreja lá, eu ajudei fazer a igreja católica, e havia um médium lá também, que tinha um Sitio, mais nunca conseguiu formar um centro espírita.

P: Como chegaram essas primeiras pessoas? Houve uma propaganda no rádio, como aconteceu?

R: A imobiliária Sul Mato-grossense foi montada, e levou muitos japoneses pra lá, por causa do povo que era respeitado. Saíram da Zona de Cafelândia, de Marilia e muitos do Paraná, e adquiriram sitio lá na região de Amandina.

P: Pelo que eu entendi Ivinhema não existia, já havia Nova Andradina, com o Moura Andrade e o senhor tem idéia de como surgiu Ivinhema?

R: Ivinhema foi o Reynaldo Massi que tinha fazenda lá, a mata era boa, o Reynaldo foi comprando lote e mais lotes formando a Someco.

P: Essas terras pertenciam ao Governo?

R: Já tinha algumas particulares, e do Governo também. Aquela parte do rio era dos japoneses, ficou pros parentes do Osvaldo Fungivala, e os filhos do Antônio Tackuicha.

P: O senhor chegou a conhecer os primeiros proprietários da fazenda paraíso?

R: Era minha irmã

P: As pessoas que iam pra Amandina, iam com as famílias pra adquirir terras lá e trabalhar, ou iam solteiros?

R: Os japoneses iam com a família pra lá.

P: Na região de Amandina teve uma fabrica de cadeiras, você sabe quando eles se instalaram lá?

R: Mais ou menos em 1955. Quem levou pra lá foi o Osvaldo Fungivala, que tinha fazenda lá.

P: O senhor chegou a ter serraria em Amandina?

R: Sim. Eu vendi a serraria pro Francisco Ferreira.

P: Quem foi o primeiro que instalou serraria?

R: Foi o meu primo, ele era do Sul de Mato Grosso, mas não vendia madeira pra fora, era só pro consumo da região, só pra construir as casas.

P: Qual era a madeira que predominava?

R: Peroba. Tem muitas qualidades de madeira lá, tem cedro, ipê e Angelim.

P: E os animais?

R: Tinha muitas onças.

P: Seu Zeuno, o senhor foi primeiro que o seu irmão Zildo pra região, ou vocês foram juntos na divisão das terras?

R: Nós fomos de véspera, e fomos de barco, mais já tinha o campo de aviação na fazenda, na primeira fazenda lá dos japoneses.

P: Seu Zeuno conte para nós àquela história de que o senhor precisou pegar 10 tipos de transporte.

R: De Presidente Epitácio pra pegar Sorocabana pra vir para São Manoel, lá nos morávamos em São Manoel, saia primeiro a cavalo para encontrar com a Maquila em Amandina na vila, que dava 10 km de distância a cavalo, e depois pegamos a caminhonete do Marques da estadual para ir para Epitácio, quando chegou na outra travessia do rio Ivinhema de balsa, acabou a gasolina da caminhonete, ai mandei busca com o balseiro que tinha lá gasolina temperada com óleo do motor de poupa, mas a gasolina não deu pra chegar até o SENAI que tinha lá uma selaria, e que tinha gasolina de reserva, o SENAI fica 5Km de hoje Nova Andradina, e ai veio um caminhão de tora e que estava tirando a mata da fazenda do Moura Andrade, e pegamos o caminhão, então andou de cavalo pra chegar em Amandina e caminhonete, andou de caminhão de tora pra buscar gasolina no SENAI, depois chegamos em Nova Andradina que existia posto de gasolina, ai abastecemos, até que furou o pneu da caminhonete e passou um ônibus que vinha de Dourados pra Presidente Epitácio, peguei o ônibus pra consertar em Bataguassu, cidade feita pelo Bata que tinha fabrica de sapato no Rio Grande do Sul, depois arrumei um caminhão que vinha até Presidente Epitácio, depois chegando lá, a balsa já tinha partido, mais tava perto, peguei um bote e fui de bote até alcançar a balsa, quando a balsa chegou sempre que levava o automóvel dentro, no rio Porto XV até Presidente Epitácio, peguei a charrete, fui até a estação e peguei o Trem, isso tudo saindo as 4 horas de Amandina, cheguei as 07:30 da noite na estação de Trem, das 8 que tinha pra São Paulo.

P: Qual o tipo de alimentação que vocês tinham na época?

R: Tinha o japonês que tinha horta, a horta bem domesticada com muita qualidade de verdura, tinha o gado largo, tinha carne e tinha açougue, então eu fiz um prédio de açougue em Amandina, e eu tinha um comércio, que vinha caminhões que levavam as mercadorias pra lá, tinha um Paraguai por nome Forquinhome, que tinha duas chácaras cheias de mercadorias, mercadorias estrangeiras, exportadas da França e da Inglaterra, armas, munições, chegou ali e ia fazer um comércio na beira do rio Ivinhema, e Forquinhome morava em Presidente Epitácio, era rebocador que vende duas chácarascom todas as mercadorias, então os fazendeiros encomendavam aquilo que quisesse, e esse Forquinhome pagava bom preço pela pele de jaguatirica.

P: Lá tinha bastante jaguatirica?

R: Sim. Tinha bastante na fazenda Santista, cheguei a ver três onças pintadas e uma parda.

P: E paraguaios, o senhor chegou a ver bastante?

R: Sim. Tinha bastante paraguaios que vinha trabalhar na região, também eram bons trabalhadores.

P: Eles vinham só ou traziam a família?

R: Vinham geralmente só, eles eram chamados de cama de varas, que faziam as camas com vara de mato e colchão com palha de mato.

P: O senhor ouviu alguma vez falar em alguma onça que chegou a atacar algum ser humano?

R: Nessa região não, mais em outra região, um engenheiro subiu na barraca e o companheiro preto, e falou: passou um bicho aqui debaixo da minha rede e me levantou, e ai então, o engenheiro falou: não é nada, então saíram correndo, subiram na arvore, o engenheiro subiu na frete e o preto não conseguiu subi, a onça avançou e ficou comendo o preto e o engenheiro vendo de cima, ele tava com uma arma mais na hora não conseguiu atirar.

P: O senhor sabe se tinha capivara?

R: Muita paca, em grande quantidade e muita capivara também, vi anta, e naquele tempo podia caçar à vontade, e aproveitava a carne da anta.

P: O senhor doou um pedaço de terra ali pra Amandina, para o cemitério?

R: Sim.

P: Como vocês faziam na época para preparar a terra, o plantio?

R: Era derrubada a mata, queimada, era essa madeira de leito mesmo na forma do Decreto, madeira a Lei. Foi comprado um trator esteira para fazer a estrada de Amandina á Nova Andradina que já tava sendo aberta pelo Moura Andrade, maquinas já trabalhavam na estrada.

P: Como vocês colhiam o café?

R: Eu cultivei mate também, e vendi pra mate laranjeira, exportei o café, deu uma safra muito grande, e eu coloquei maquina de derriçar café na fazenda, eu preferi mandar pra Santos que era menos despesas, preço menor que o Paraguai pagava.

P: Então a grande vilã da região foi a geada?

R: E a pecuária.

P: Pode se dizer que o senhor foi um dos primeiros a produzir café na região?

R: Sim.

P: Na abertura da sua fazenda, o setor que existia lá era a mate laranjeira? Vocês chegaram a encontrar algum vestígio, algum material que realmente comprovasse a presença na região?

R: Peças de caminhão, rancho caídos, entre outros.

P: O senhor tem conhecimento do porque que mate laranjeira se afastou da região?

R: Dizem que o Presidente do Brasil exigiu que abandonasse essa região, e criou um departamento de terras em Dourados.

P: Então a mate laranjeira explorava essas terras sem permissão?

R: Não, eles tinham permissão.

P: Eu ouvi contar que descobriram pedaços de trilhos de ferro na região, o senhor chegou a encontrar?

R: Não, na fazenda não tinha.

P: Como o senhor considera a região, ela era muito violenta?

R: Sim, ouvi muitas mortes.

P: Isso vinha das pessoas que vinham trabalhar?

R: Era um faroeste.

P: Teve mais que um delegado que empunhava ordem?

R: Ele cuspia na água de cima da ponte, e ninguém conseguia escapar da policia, chamados de capturas.

P: O senhor chegou a participar de algum processo político do estado, elegendo alguém?

R: Eu nunca votei no Mato Grosso.

P: Então o senhor não participou do processo político do Mato Grosso do Sul e nem do primeiro prefeito de Ivinhema?

R: Acompanhei o primeiro prefeito de Ivinhema, foi eleito um gaúcho, o Luiz Grande, depois veio um grande amigo nosso o Paulo Rodrigues.

P: Então indiretamente o senhor colaborou no processo?

R: O meu tio foi vice Senador, aquele comunista.

P: Na época tinha algum tipo de divertimento?

R: Corrida de cavalo ás vezes, e em Nova Andradina tinha briga de galo japonês.

P: Tinha baile de sanfona?

R: Não. Nunca fui a baile.

P: E os casamentos eram feito aonde?

R: Em Nova Andradina.

P: Isso era em 1950?

R: Nova Andradina foi feita em 1960.

P: Se tivesse uma doença mais grave, ia pra Nova Andradina? Qual era a dificuldade que vocês encontravam pra ir para Dourados nessa época?

R: Era difícil, Dourados era difícil no começo, lá o povo era sadio, só morria gente por assassinato, mais de doença não.

P: O pessoal se vestia de acordo com a época ou era diferente?

R: Não, calça jeans comum.

P: Então de primeira mão vieram os japoneses e depois qual a outra, italianos?

R: Sim.

P: Que saíram então das cidades do interior?

R: Sim, e vinham comprar terras, terras baratas e boas.

P: O sistema de energia, como era?

R: Em Ivinhema o Reynaldo Massi comprou o conjunto termo elétrico do navio do norte, chegou pelo rio até Ivinhema, depois veio a companhia, todas as fazendas queriam ligação, em 1951, era lampião de querosene e vela, não tinha energia.

P: Com a produção de café, tinha alguma indústria ali?

R: Tinha na minha fazenda pro meu próprio uso.

P: Esse primeiro café que o senhor mandou para São Paulo entrou por Epitácio, ele já entrou registrado?

R: Sim.

P: Assim que o senhor plantou o café, já instalou a maquina?

R: Logo no começo, em 1951, já derrubei café e plantei 25 mil pés de café.

P: Um pedaço posterior de terra que depois passou a rodovia?

R: Não, dava 500 metros até a rodovia.

P: Seu Zeuno, como é que foi a rodovia de Amandina?

R: Era uma estrada entre Ivinhema.

P: Então aquele pedaço já pertencia ao Governo, e o senhor tinha umas terras um pouco pra cima, a estrada passou ali?

R: Sim.

P: O senhor chegou a pescar lá no rio Ivinhema na época de 1951?

R: Sim. Pescava muito.

P: Tinha muito peixe?

R: Não. Tinha época que pegava muita piracema.

P: O que vocês pescavam?

R: Peixe bom era pacu, pintado, jaú, Piracanjuba, porque pega peixe igual batata, não pegava dificilmente, pegava no anzol e comia com aquele molho japonês, sashimi e xoio.

P: Vocês chegaram com o sashimi então?

R: Sim.

P: Quando o senhor saia a cada 60 dias, o senhor saia de que forma?

R: De jipe.

P: Quanto tempo o senhor ficava lá?

R: Duas semanas, em torno de 10 dias.

P: Quer dizer que o senhor tinha uma equipe de apoio, que administrava enquanto estava fora?

R: Eu tinha um administrador da fazenda.

P: E hoje seu Zeuno, quem faz esse serviço?

R: Os meus filhos. Meu filho Marx e minha filha Acinaia. Em uma das duas fazendas de Dourados eu crio, depois vem pra fazenda Santista, aonde eu vou e crio desde o nascimento até ir pro frigorífico, e compramos bezerro ás vezes, mas como ta muito alto agora, resolvemos criar. Já levei búfalo pra lá, eu tinha cavalo de corrida e pra administrar bem os potrinhos, deixar eles forte, eu comprei búfalo pra tirar o leite da bufalina, pra dar pros potrinhos. No fim deu uma peste que matou quase todos os meus cavalos e ai acabei perdendo um cavalo chamado Cairo, puro sangue, e as duas éguas que proveniência a criação, uma chamava Ásia e a outra Caramelo. De 10 búfalos que eu comprei, já vendi mais de 1000, comprei em 1964, a búfala da 20 crias e a vaca da 10 no máximo.

P: As derrubadas das matas foram exclusivamente de machado e foice ou tinha outro mecanismo?

R: Não. Só machado e foice, não são como no serrado, que vai com dois tratores de esteira.

P: Então tinha critério?

R: Era na serra com dois, um de cada lado, e serrava a madeira, derrubava e vendia a tora pra serraria e depois queimava, derrubava as árvores finais com foice e machado, depois colocava fogo.

P: A fazenda era formada exclusivamente de mata?

R: Sim. Mata natural.

P: O senhor acha que foi bem aproveitado essa madeira de uma maneira geral?

R: Essa madeira hoje sim, mais antigamente não queimava muita madeira, dava pra fazer carvão e fornalha de olaria. Eu tinha olaria na fazenda também, tinha o casão que fazia telha tipo francesa e hoje faz mais tijolo, era de um pescador lá de Presidente Epitácio. Ele comprou um avião, então ele tomava avião lá no campo de Presidente Epitácio e descia no meio da cidade de Amandina, na rua. Fui até esse campo e pedia ao chaveteiro me levar até o campo, dizia assim: “me leva até o campo de aviação, vou pegar um avião que esta me esperando lá”. Ele perguntou: “mas o senhor tem coragem de anda de avião?” Respondi: “mas é claro, todo mundo anda, sou aviador também!” Já era aviador naquela época, e ai chegamos e perguntei se podia ver o avião, o moço disse pode, pode até pegar, então quando o chaveteiro, que era nortista, viu o avião ficou admirado, pediu pra pegar no avião e tudo mais, então perguntei se ele tinha coragem de subi, ele respondeu que não, mais a cavalo o senhor monta, burro bravo o senhor monta, ai ele respondeu que já tinha domado muito burro e perguntei pro aviador que tava do lado se ele sabia anda de cavalo, ele falou que não tinha coragem de anda num burro. Um não tinha coragem de andar de avião e o outro não tinha coragem de montar num burro, então tava tudo certo.

P: O senhor vinha de lá pra cá, mas não era sua a propriedade?

R: Não. Esse não era um táxi aéreo. Tinha 2 ou 3 aviões que faziam, tinha outro de Londrina, o piloto era o Chico Manicato, e o do café, Danelão o Bardoso, que se perdeu no Paraná.

P: E o senhor sabe descrever como é que descobriram aquela região?

R: Foi um tio meu que soube que ia abrir esse departamento de venda de terras lá, e que meu irmão como ele trouxe o negocio, meu pai tinha tanto recurso na época e nós demos 1000 alqueires de terra, sem ele precisar pagar, era cunhado do meu pai, irmão da minha mãe, ai então nos fomos pra lá, tinha advogado aqui, nosso amigo, minha avó tinha uma chácara, meio quarteirão, na Cardoso de Almeida, ainda tem as terras, mas é dos meu sobrinhos já, não fizeram mais casa. Então foi o advogado das perdizes da família do Mato Grosso, filho do Alvio Marques, que também morava na Cardoso de Almeida, foi morar em Campo Grande, e lá ele ficou sócio de um advogado da família Barbosa Martins, Clécio Barbosa Martins, e então ficou nosso advogado pra requerer pro Governo, pra fazer os requerimentos, e ele que era amigo do engenheiro Dilmides Araújo Franco, e ele falou pra fazer a medição da área da região lá, eram 10 lotes de quatro mil alqueires, são 40 mil alqueires que a minha família teve na região, inclusive onde é a cidade de Ivinhema, era do meu cunhado Edigardo Azevedo Macena, mineiro de Belo Horizonte, formado em medicina pela faculdade de Belo Horizonte. Meu avô era mineiro da cidade de Porto Alegre, e se casou com uma prima, eles vieram com os escravos e aqui perto do Rio Jacaré eles compraram uma fazenda.

P: Que ano foi isso?

R: Isso foi no século passado, com essa mulher ele teve quatro homens e três mulheres, dos homens, um se formou advogado pela escola São Francisco, que depois tornou-se juiz de Direito na cidade de Ribeirão Preto, perto de Dourado, Mato Grosso é Dourados, só muda o s. As mulheres formaram professoras, e tinha o Francisco que não se formou, e o Ivo tornou sitiante em Cafelândia, do segundo casamento, depois que a sua primeira mulher faleceu, ele se casou com minha avó, que morava em Itaquirai da Serra, perto de Itirapina. E com ela teve oito filhos com diferença de dois anos cada. O primeiro Manoel Rodrigues Simões, que é o nome do meu avô, formou-se em direito pela escola São Francisco, os outros dois Caio e Agenor, formaram-se em medicina pela escola de medicina do Rio de Janeiro, das quatro mulheres, a primeira casou-se com medico baiano, as outras três, uma formou-se professora, uma farmacêutica e outra conserva tonho musical, e dessas todas que casaram tiveram muitos filhos, a não ser a Magnólia que ficou solteira, e elas todas foram fazendeiras na cidade de Cafelândia, estado de São Paulo. Meu avô, depois que casou-se com minha avó, que era prima-irmã do grande pecuarista Antônio Soares de Moura Andrade, que formou a cidade de Andradina e Nova Andradina Mato Grosso e São Paulo. Antônio Soares de Moura Andrade era proprietário da fazenda baile, onde foi loteada para fazer a cidade de Nova Andradina, essa era a vida do meu avô. Já meu pai não se formou só, fez o ginásio e fez os cursos preparatórios, antigamente quatro anos fazendo curso preparatório, era menos matéria, hoje é mais elevado, tanto que meu irmão mais velho Zelio, formou-se com 20 anos de idade como advogado pela escola São Francisco de São Paulo, meu pai, grande empreendedor, chegou a possuir ele sozinho um milhão de pés de café em quatro fazendas em Cafelândia: fazenda maravilha, maravilha nova, harmonia e fazenda independência e em São Manoel fazenda paraíso, tem a fazenda São José combinada, a fazenda Meira, que era do lado da minha mãe, dos quais eram todos fazendeiros descendência portuguesa, família  Meira era o Dono Seis Marias, dadas no tempo do Imperador Dom Pedro II, essa Seis Marias era uma grande quantidade de terras, das quais foram vendidas aos poucos, ficando finalmente somente com essa fazenda São José do Paraiso, esse nome é devido a minha avó, que era casada com José Meira Leite, minha avó materna chamava Oliveira Machado Meira  e minha vó paterna Maria da Silva Simões, onde tem uma rua na vila de Amandina.

 

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