Entrevista Semi-Aberta com Valmir Batista

 

Estamos aqui na casa do senhor Valmir Batista, ele vai nos conceder uma entrevista, nas questões das manifestações culturais. Nesse momento, nós estamos aqui colhendo as informações para o Projeto: Ivinhema Raízes Históricas. Ele, que tem feito e defendido a bandeira do santo reis, e nós queremos conhecer um pouco dessa cultura que ele defende a tanto tempo em nosso município.

P: Bom dia.

R: Bom dia.

P: Nós vamos fazer uma entrevista com o senhor, e nós gostaríamos de algumas informações preliminares. Nome completo?

R: Valmir Batista.

P: Sua filiação?                          

R: Meu pai se chama Rosalino Gonçalves Batista e minha mãe Maria Eliza Batista.

P: Data de nascimento?

R: 09 de agosto de 1962.

P: Nasceu aonde?

R: Em Paraná, cidade Guaucha.

P: Casado?

R: Sim.

P: Nome da sua esposa?

R: Sim, dois.

P: Qual o nome deles?

R: Heloisa Carvalho Batista e Rosalino Gonçalves Batista Neto.

P: Qual sua formação escolar?

R: Tenho o segundo grau completo.

P: O senhor se lembra das primeiras pessoas que teve contato quando chegou a Ivinhema?

R: Daqui, tem o senhor José, mas nós fomos morar na Angelina, tinha o senhor Masolino, Camilo, Cirço, tinha comércio lá em baixo, dona Irani, seu Orlando e várias outras pessoas.

P: A dona Irani que o senhor falou é a professora?

R: Sim, nós cantamos muito Reis na casa dela.

P: Antes de morar em Ivinhema, o senhor morava aonde?

R: Na gleba Angelina e depois na Vitória.

P: Mas antes de vir pra Ivinhema?

R: Meus pais eram mineiros.

P: Quantos anos você tinha quando chegou aqui?

R: Eu tinha dois anos.

Passamos agora para as informações do grupo Santo Reis.

P: Como se deu o início dessa companhia?

R: Vem de tradição, de pai para filho. Desde Minas Gerais, do meu avô passou para o meu pai, do meu pai para mim, e esse ano faz 125 anos. Então é uma tradição que um dos filhos já pegava a vocação e ai passava para o outro.

P: Então o inicio dela vem lá dos bisavós?

R: Vem lá dos meus avós, lá de trás.

P: Como que é composta a companhia?

R: Hoje o meu entendimento da companhia de reis, é que nós a temos como uma forma religiosa, mas meu pai e o meu avô sempre saíam com a companhia de reis, tipo assim, tem varias companhias de reis, umas que usam palhaços, ai chega pedindo ofertas, meu pai tinha uma promessa a cumprir. Na época que ele morava em Minas, o irmão dele foi mordido por uma cobra, e lá não tinha médico, como ele saía com reis na época que ele tinha 16/17 anos, ele foi num pé de uma figueira e disse que se o irmão dele melhora-se, ele sairia com a folia de reis durante 49 anos. E ele não conseguiu cumprir, porque ele morreu antes, e eu cumpri o resto da promessa dele. Então sempre era uma época de fé. Lá tinha uma época que não chovia, então eles faziam essas promessas, para que tivesse chuva em abundancia para ter alimento, e isso acontecia, era como se recebesse um milagre e sempre eles continuavam. Faziam promessas de sete anos, e sempre numero impar 3/7/15/21 e assim por diante.

P: Nós realmente podemos chamar de companhia?

R: Eu tenho ela como folia de reis, por que uns falam folia, e eu tenho conhecimento que folia é carnaval, e uma folia de reis é bem seguida, ela é bem, a doutrina da companhia de reis que você pode ver em Matheus 2, ta ali todo o processo, o nascimento de Cristo, a Nossa Senhora, a visita do anjo da guarda a Maria, então esse é um dos processos da finalidade que agente sai visitando as casas, contando o nascimento de Jesus, a maravilha de Jesus ao mundo, para poder nos salvar, que ele veio pra da a vida por nós, então esse é o acontecimento, os três reis magos quando tiveram a visão da estrela guia, eles tiveram uma visão mas não sabia onde ia dá, só sabia que tinham que visitar o rei dos judeus que era Jesus, e seguir aquela estrela, mas não sabiam se era com, um dia, com doze dias, ou com dez que concluiriam o circo até Jesus Cristo, eles perguntaram ainda para Herodes onde ia nascer o rei dos Judeus, eles falaram ainda que fossem lá, mandaram duas pessoas na época, eles usam os palhaços como guia, que representam o coronel e o capitão, mas quando chegou lá e viu toda simplicidade, e José disse que em sonhos veio o anjo, e que não era para voltar pelo mesmo caminho, pois Herodes iria matá-lo, ai foi que eles foram embora por outro caminho, então agente sai fazendo esse mesmo trabalho, contando esse nascimento de Cristo, as vezes quando você chega numa casa tem um presépio, você canta os cânticos, mas nesse sentido, então eu mesmo aprendi dessa forma, não saio visitando uma casa em busca de donativos, e tem festa dia seis de janeiro, se puder dar um café eu dou, se eu puder dar uma água eu dou, se eu puder dar uma carne, eu dou, agora também tem muitas casas que já tem essa devoção de doar alguma coisa.

P: O senhor se lembra do inicio, se já tinha outras companhias?

R: Tinha a do senhor Novais e a do senhor Adilino.

P: E essas companhias estão ainda em atividade?

R: Não, eles já morreram. E depois tinha do cabo de aço, ai acabou e foi embora. Depois iniciou de novo, que o Rubens faz parte dos cabos de aço. Seu Rubens era folião do meu pai.

P: Quais são as crenças e os mitos que cercam essa tradição?

R: A companhia de Reis, como agente faz o encontro de folia de Reis na Aparecida do Norte, de vários municípios, eu já cantei varias vezes dentro da basílica, eu já visitei lá quatro vezes.

P: Como você vê nos dias atuais essa crença dos três reis magos?

R: Hoje ela esta se acabando, por que com o conhecimento que tem as pessoas mais antigas, ela busca raiz na companhia de reis, mesmo nessas visitas que eu faço na Aparecida do Norte, da pra você contar a dedo, porque tem umas que eles visão o dinheiro, acabam usando o palhaço pra fica pedindo oferta nas casas dos outros, pegando as coisas, quer dizer, vai morrendo a tradição, todo mundo vai vendo aquilo como meio de vida, e não é pra se ser vista como meio de vida, mas sim, pra ser vista como momento de fé, onde você se fortalece, chega numa residência, mete o joelho no chão, e pede a Deus, porque é Deus que faz milagre, é Deus que tem poder, e você só tem um poder a mais, de chegar nas mãos de Jesus Cristo, pra poder realizar aquele desejo, aquele sonho que a pessoa tem. Então jamais eu posso chegar na sua casa, como por exemplo com bebida, alcoolizado, desse jeito não é uma forma de seguir, e tem um monte por ai, eu não sei quais e não to citando que a minha é diferente das outras, mas que não é dessa forma. Você tem que chegar rezar a oração que Deus ensinou, e fortalecer aquela família, perguntar como eles estão, se estão feliz, você canta um reis alegre, se estão triste, você canta um reis pra Deus dar alegria pra essa família.

P: Durante esse trabalho feito, durante a sua pesquisa de informações a respeito, você se lembra de algumas historias contadas pelo pessoal, alguma coisa diferente, algumas manifestações?

R: Eu já tenho confirmado de vários acontecimentos de que você vê as pessoas receberem o pedido, vê fazer o pedido e no outro ano com a graça de Deus acontecer, eu tenho caso aqui, de famílias terem perdido com a mesma doença dois, três filhos e o ultimo filho ela ajoelha na frente da bandeira, com a força daquela época, do dia 24 ao dia 6 de janeiro, e pedir no altar para que Deus ajuda-se o filho dela, e ela recebeu. E de várias doenças que eles não encontravam a cura, e no outro ano quando ia ao médico não tinha mais nada.

P: Eu gostaria que você ficasse a vontade, de repente ate passasse algumas informações que nós desconhecemos, da caminhada do inicio ao final.

R: É do dia 24 de dezembro ate o dia 6 de janeiro.

P: No dia 24 de dezembro, que forma ela é lançada?

R: No dia 24, a forma correta é você ir meia noite, iniciar com o terço, você reza, reuni a companhia de reis, faz um circulo, que sempre sai da direita para a esquerda. Você vai nesse circulo, durante a jornada não pode cruzar a bandeira, por que se cruzar perde um dos foliões, coisa que eu aprendi e nunca teimei, se eu passar por exemplo, aqui ta sua casa, e eu passei por ela e cantei lá na frente, você vai e volta na sua casa, não pode, posso canta pra você ali, mas nem você me dando milhões de dinheiro, não é essa a nossa finalidade que muitas pessoas vê dessa forma, arame no quintal, você não pode passa por debaixo de arame, não o pessoal, a bandeira, outra forma como é por exemplo os que saem com palhaço, se esconde, se você tem alguma coisa guardada na sua casa você pode esconder, e ele tem que achar.

P: Você lançou a sua companhia dia 24, fez o terço, ai fica por ali naquele dia?

R: Não, ela vai dar apoio na ultima casa.

P: Vamos supor que você lançou hoje aqui na sua casa, da onde ela sai, ela chega?

R: Lançamos ela aqui hoje, fizemos nossa oração e tal, amanha nos vamos ao nosso vizinho, a bandeira permanece lá. Hoje eu tenho aqui cinco pontos estratégicos, em cada bairro eu tenho um, o seu Vicente, a dona Dulce, o Triguinã, o seu Osvaldo na sergipana, o senhor Arão, depois no final que ela posa ate o dia seis, que é o senhor Molina que a ultima visita que eu faço e de lá eu saio da igreja dele, a ultima parada.

P: E é nesse dia que vocês fazem uma única visita o pode ser mais que uma?

R: Não, agente faz de 9 a 12 casas por noite, o ano passado eu visitei 63 residências durante o período de nove dias, ai no final, agente faz de novo a entrada, entrega a bandeira pro próximo ano, e nas visitas que você canta na residência, você, por exemplo, visita uma área rural, e ali você pede proteção pros animais, pra família, pra trazer abundancia, então se aquela pessoa recebeu, ou recebe agente com alegria, ela tem, por exemplo, um sítio com 100 cabeças de gado, e sempre da uma doença e ela perde um animal, aquela pessoa pode pegar nessa época, e falar que a partir desse ano, com fé no Senhor Jesus Cristo, eu quero que você deixe uma benção para minha propriedade, e não perder animal nenhum na minha propriedade, e todo ano eu vou te dar uma galinha, um porco, então ele recebe, não tem problema nenhum, e tudo que você recebe, você não pode usar pra nada, a não ser pra companhia de reis, a não ser que chegou alguém assim vamos supor que você ganhou quatro novilhas, na festa você matou três, e sobrou uma, então você chegou em mim e falou Valmir, a minha família ta passando mau, minha esposa e eu precisamos fazer uma cirurgia, eu por obrigação devo doar a minha novilha, que eu ganhei naquele ano pra você fazer uma rifa e salvar a sua esposa. Se no futuro você conseguir trabalhar, e tiver saúde, tiver seu dinheiro de volta, pode vim e devolver pro reis, e isso eu posso fazer, agora eu usar pra mim, pros meus fins, pro meu dia a dia, de jeito nenhum. A não ser pra comprar um instrumento, ou coisa assim, o que é dele é dele.

P: Quantas pessoas têm na sua companhia?

R: 22.

P: Qual é o critério para entrar?

R: Tem que ter fé, gostar, porque ali você tem que abrir mão, agente fez seis horas, então você vai sai comigo, ai até meia noite, e no outro dia você tem que trabalhar, e você tem que ir, não pode falta, você fez o compromisso de sair do dia 24 ao dia 06, a não pude ir ontem por que minha mulher tava com febre, você tem que vim, se ela ta com febre é mais uma razão pra você vim, e quando chegar lá, esta melhor, então hoje mesmo eu tenho minhas filhas, o dom já vem de Deus, hoje ela toca violino, ela de pequenininha já tinha um apego por percussão, esse menino tem o nome do meu Pai. Será o nosso embaixador no futuro.

P: Você já fez alguma pesquisa no Brasil, qual o Estado que originou a companhia de Reis?

R: Minas Gerais. Porque veio de Portugal, hoje mesmo você encontra um conhecimento bem mais amplo e mais forte em Minas Gerais, em Minas Gerais muitas coisas que às vezes agente não usa, por que o Reis de antigamente, ele tinha uma parte boa que é graça de Jesus, e a parte ruim que é onde age dessa forma, que você esconde um objeto na sua casa e não acha e ali fica um dia, fica dois, fica três. Antigamente, agente saia com um percurso de duas turmas, saia do dia 24 ai ficava na sua casa, posava, comia, ai depois aquela outra turma pegava e ia embora, mas o que não é errado, é chegar na sua casa, e eu lhe pedir uma oferta para festa do dia 6 de janeiro, ai você junta aquilo tudo e da uma festa no dia 6 praquele povo todo. Teve uma vez que eu cheguei lá no sacrário, e falou aqui não pode fica pedindo oferta, e eu falei com a Graça de Deus eu não vim aqui com essa finalidade, você pode vê que nem palhaço eu tenho, eu não vim pra Aparecida pra busca oferta, Deus sempre me deu. Você percebe na visita na casa, a pessoa que recebe uma companhia de Reis com amor, com felicidade. Às vezes você tava lá na sua casa, triste, e fala que precisa de uma oração, então Deus automaticamente desse um anjo, alguma coisa forte, e Ele vai te dar as palavras que você vai passa conforto, essa é a função da companhia de Reis, é trazer praquela residência, essa felicidade, esse conforto, essa transparência, o amor, levar essa bandeira, levar essa jornada sua, levar meu pedido menino e colar na minha bandeira.

P: Nossas informações basicamente eram essas, fica ai pra suas considerações, se o senhor tiver mais alguma coisa que possa nos acrescentar.

R: Eu peço a Deus que a cada visita que eu faço as pessoas que conhecem realmente a companhia de Reis, que passam um pouquinho de conhecimento pros filhos, pra não acabar no futuro, porque ultimamente, as tradições antigas estão se acabando, a juventude não vê mais dessa forma, eu tenho folião meu que de 69, 78 e 81 anos, eu, minha esposa, e meus filho, são os mais novos, e dos filhos deles, não ficou um.

P: O senhor acha que tinham muitas companhias há um tempo atrás?                                           

 R: Sim. Hoje é difícil você conseguir ter folião para seguir a regra normal, a maioria já vem de folião de Reis, que se chega na sua casa, e tive um garrafão de vinho, ele acaba com tudo ali. Então hoje você encontra mais mulher vindo pra folia de Reis do que homem, é difícil você colocar no coração de uma pessoa, que aquilo ali é uma coisa seria, é uma visita, você não vai encontrar embaixadores como o Rubens ou o filho dele, que tem o mesmo conceito que o meu.

P: Então finalizamos a entrevista aqui com o senhor Valmir Batista, ele que nos recebe gentilmente na sua residência, deixou seus afazeres ali do comercio, e Valmir, fica aqui registrado que a idéia dessa entrevista, é que nós possamos deixar registrado num projeto de Ivinhema Raízes Históricas, e que num futuro, a nossa comunidade tenha um conhecimento e quem sabe venha fazer parte dessa sua idéia. Então nós agradecemos o seu dispor nesse dia maravilhoso que nós nos encontramos, aqui na sua casa e finalizamos a nossa entrevista.

R: Eu que te agradeço pela oportunidade, agradeço todas as pessoas que me receberam, e que até hoje me recebem nessa visita a Aparecida, eu já consegui através do novo mandato do Renata Câmara, que nos apoiou, que foi o irmão dele, o Ricardo, buscando essa historia das culturas antigas, e eu consegui me cadastrar para que toda vez que eu vá para Aparecida, não pagar nada, nem hotel, aqui o município arca com a viagem e com a despesa.

P: Ta bom muito obrigado!

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