Entrevista Semi-Aberta com Rubens Ferreira

 

Hoje dia 16 de julho de 2011, eu Josiane e o Nelson acadêmicos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, estamos aqui na casa do senhor Rubens Ferreira, dono da Companhia de Reis do Município de Ivinhema, para realizar uma entrevista com o mesmo.

Iniciemos agora a entrevista

P: Primeiramente seu Rubens bom dia!

R: Bom dia.

P: Nós vamos começar por algumas questões pessoais. Sua filiação, nome do seu pai e da sua mãe?

R: Catarino Ferreira e Maria Aparecida.

P: Data de nascimento?

R: 12 de Dezembro de 1956.

P: Local de nascimento?

R: Loanda, Paraná.

P: Tem esposa e filhos?

R: Sim.

P: O nome da sua esposa?

R: Idalina Maria da conceição.

P: E dos filhos?

R: Maria Aparecida Conceição Ferreira, Claudemir Ferreira, e Rosemeire Conceição Ferreira.

P: Como o senhor veio para essa região?

R: Eu morava no Paraná, ai mudamos para Ivinhema em 1975.

P: O senhor teve alguma dificuldade em adaptação em Ivinhema?

R: Não, porque nós já viemos pra dentro do que é nosso, compramos uma chácara e ali construímos.

P: E como o senhor iniciou essa companhia de folia de Reis?

R: Bom isso ai eu herdei do meu finado Pai. Desde Minas Gerais que ele vinha cantando Reis, e nós crescemos dentro do Reisado mesmo, ai nós acostumamos e seguimos a devoção dele.

P: Quando o senhor iniciou aqui no município?

R: Foi em 1974. Eu nem morava aqui, vim passear aqui na casa dos meus irmãos, que já moravam na gleba vitória, e em 1974, nós fizemos uma festa de reis ali na gleba Vitória.

P: Como é composta a companhia? Como ela é dividida?

R: Tem eu que sou o mestre, tem o contramestre que agora é meu filho, quando um cansa entra a minha esposa pra ajudar canta e os outro que respondem atrás.

P: E quais são os instrumentos que são tocados?

R: É viola, violão, cavaquinho, sanfona, pandeiro, reco-reco, zabumba, chocalho e triangulo.

P: Dentro da folia de Reis, qual é o principal objetivo?

R: O objetivo nosso, é levar alegria aonde nós chegamos, e depois, fazer a festa no dia seis.

P: O que motivou o senhor a montar essa folia de Reis no município?

R: O que motivou foram os vizinhos, eu comecei de pouquinho, ai eles assistiram, achou bom, e dai todo mundo me influenciou a sair todo ano.

P: Existia outras folias de Reis no Município?

R: Sim. Ali no cabo da foice tinha a folia de Reis, que era do finado Miguel Novais, e tinha a folia de Reis do pai do Valmir, na época já existia, quando eu vim pra cá, eles já estavam ai.

P: E quais são as crenças ou mitos que cercam essa tradição? O porque de sair nas casas cantando?

R: Nós saímos nas casas pregando o nascimento de Cristo, é uma época de natal, vamos supor o dia que Jesus nasceu, então saímos com essa alegria cantando nas casas.

P: Como o senhor vê, nos dias atuais, essa crença nos três Reis Magos? O senhor acha que continua como antigamente, ou vem perdendo força?

R: Eu não sei, por onde eu passo, eu sou bem recebido, inclusive, muita gente até fica bravo comigo porque eu não passei na casa. Mas eu acho que é a mesma coisa, eu já cantei até na casa de crente, tem crente que me chama pra cantar, e eu vou lá e canto. Eu não acho muita diferença, porque agente faz as coisa bem feito, é uma coisa do bem, bem organizado, então agente é bem recebido em todo lugar que vamos. Eu não acho que, inclusive, nos doze dias não da pra irmos cantar em todos os lugares que precisamos ir, e acho que seu pai mesmo sabe disso, muita gente fica bravo por que agente não passa, não da tempo de passar em todo mundo, graças a Deus, essa folia de Reis minha é bem recebida em todo lugar.

P: No dia 25, como ela se inicia?

R: Se inicia no dia 24, à meia-noite, ai nós não paramos mais, é a noite toda, porque de dia muita gente trabalha, e nós somos todos pobres, e fraco, então temos que trabalhar, ai vai ate o dia seis.

P: Nesse primeiro dia, vocês fazem alguma cerimônia, alguma coisa assim?

R: Nós rezamos um terço na saída da bandeira, depois nós saímos cantando.

P: Tem algumas histórias que cercam essa tradição, como por exemplo, não poder cruzar bandeira, por que não pode?

R: Isso ai já vem de muito tempo atrás, porque antigamente tinha muita ignorância. Cruzar a bandeira é ir a uma estrada, ir até na frente e volta pelo mesmo caminho, e acha outro, e entra, ai chega lá, e volta, e faz uma cruz ali. Antigamente tinha uma pessoa, que no meio da folia de Reis, acontecia de morrer, e a pessoa falava "puta merda", foi cruza a bandeira, e o fulano morreu, é por causa disso que não pode cruzar a bandeira, se não atrapalha a folia de Reis. Às vezes, quando vai indo tudo bem, der repente acontece esse cruzamento de bandeira, começa um folião ou outro, faz uma meia discussão, começa a falar que é porque cruzou a bandeira, acho que vocês devem saber que toda comunidade sempre tem umas discussõezinhas, as vezes agente, até mesmo no meio dos amigos sempre tem uma. Então quando acontecem essas coisas, culpa quem cruzou a bandeira. Eu não levo isso muito a serio não, eu gosto de ir num lugar onde as pessoas me recebem bem, vou lá, e se tive que voltar, eu volto.

P: E a questão dos palhaços, como se deu essa história?

R: Os palhaços é um fato muito sincero, porque na bíblia mesmo ta escrito, quando os três Reis chegaram num certo lugar, que era o lugar do Rei, e eles não sabia que era o Rei Herodes, ai perguntaram pra ele aonde ia nascer Jesus, o Rei Herodes se enfureceu com aquilo, por que eles falaram que nasceu o Rei dos Reis, e ele era Rei, então não ia aceitar, ai foi onde ele mandou dois soldados junto, com os três Reis para saber onde Jesus tinha nascido, pra volta e avisar o Rei Herodes, para ele ir lá e matar Jesus, ai os dois foram diferente dos três Reis, eles foram com uma mascara na cara, pra ninguém reconhecer eles, ai na viagem, eles gostaram dos três Reis, e se comoveram, e não voltaram para avisar o Rei Herodes. Eles se juntaram com os três Reis, e seguiram a viagem. É por isso que tem os dois palhaços, pra sonda onde estava Jesus, e hoje, quando nós colocamos o palhaço na folia de Reis, eles defendem a bandeira, pra nada acontecer nada com ela. Eles são os guardas da bandeira hoje.

P: Qual foi sua experiência mais positiva aqui nessa região de Ivinhema?

R: Minha experiência é que eu sou muito convidado, como na época, pra sair, pra ir cantar, que nem esse ano passado, eu fiquei muito contente porque o Padre de Angélica, o Padre Roberto, mandou me convidar com a minha companhia de Reis, foi uma experiência boa, eu nunca cheguei numa Igreja lotada do jeito que tava, acho que tinha umas 1.500 ou 2.000 pessoas, na véspera de ano, ele me convidou pra ir lá e nós fizemos uma coisa bonita lá. A Igreja ficou contente, e nós também, pra mim foi uma grande experiência.

P: O senhor conhece algumas historia antigas que o pessoal conta sobre a folia de Reis?

R: Muitos inventam sabe, talvez não seja nem historia, mais sim uma invenção pra ridicularizar com agente, uma vez disseram que estavam indo numa folia de Reis, ai eles estavam muito cansado, e pegaram a bandeira de Reis e encostou na cerca. Ai as criações vieram e comeram a bandeira, e ficou só o cabo da bandeira.

P: E a farra não tem nada a vê com a religião? O que essa baderna mostra?

R: Não tem nada a vê, a folia de Reis, é um tipo de Evangelizar agente chega às casas pra pregar o nascimento de Cristo, cantar, louvar, ás vezes tem lugar que nós chegamos, e tem presépio, agente canta quase uma hora ali, ajoelha, louva o nascimento de Jesus, é uma coisa muito seria.

P: Agora em questão aqui do município de Ivinhema, que transformações ocorreram nessa região desde que o senhor veio pra cá? E com a companhia de Reis?

R: De primeira, era mais fraco, agora ta mais forte, tem muito mais gente, tem muito movimento, o que eu acho é isso, o que mudou sobre a questão da população, aumentou mais.

P: O senhor tem mais alguma coisa para falar, alguma coisa a relatar sobre a companhia de vocês?

R: O que eu tenho a dizer é que eu comecei a fazer minha festa lá em baixo, não sei se você se lembra, no sitio não cabia mais o povo, então eu mudei ali pro salão da AABB, todo ano nós alugamos ali pra fazer a festa, sempre é para mais de 1.500 pessoas, sempre sobra o que comer e o que beber.

P: Bom, nós estamos agora, exatamente as 08:35, encerrando a entrevista com o seu Rubens, e agradecendo a colaboração dele. Já aproveito a oportunidade, e pergunto se agente pode ta utilizando essa entrevista no nosso trabalho?

R: Por mim tudo bem, não tem o que empata.

P: Muito obrigado!

R: Obrigado vocês!

Informações adicionais