Estudo de Campo feito em 1958

Reynado Massi

São Paulo-SP

 

PREZADO SENHOR

É com satisfação que, com a possibilidade que é cabível, passo as mãos de V.S, o relatório dos trabalhos topográficos procedidos nas glebas 37 “Mataria Formosa” e 39 “ipê”, de propriedades de seus filhos, os menores Ângela Christina Massi, Reynaldo Massi Junior, Lídia Regina Massi e Sandra Maria Massi, adquiridas na divisão da região de Ivinhema, município de Dourados MT., pelas escrituras Publicas lavradas as folhas 4 e 6 do livro 643 do tabelião Nobre, na capital paulista.

            Tão logo recebi essa honrosa incumbência, apressei-me em desempenhar-la e assim, devidamente equipado com material técnico, de acampamento e medicamentos, segui dia 27 de dezembro de 1955 para cidade de Campo Grande MT, onde como julguei recomendar o bom senso, procurei o Departamento de Terras e Colonização que, pensava, por ser uma instituição oficial e especializada, poderia dar-me todos os informes necessários a penetração naquela região, a qual demandava. Não fui, todavia, feliz nesse primeiro contato, pois não  sei se por deficiência de organização ou má vontade o que, alias, não deixa de ser conseqüência da primeira hipótese, a todas perguntas formuladas, responderam-me apenas, a pos grande espera, que o acesso só seria viável por Dourados.

            Avista de tão fracas informações e na impossibilidade de avistar-me com o engenheiro designado pelo Estado na referida divisão, por se achar ausente por tempo indeterminado, considerei de bom alvitre procurar os senhores Áureo Marques e Oclécio Barbosa Martins que, lamentando, declararam só conhecer as glebas pelo mapa.

            Urgia o maximo aproveitamento de tempo razão porque prossegui para Dourados onde cheguei no ultimo dia do ano. Nesta cidade, logo nos primeiros dias de janeiro, passei a investigar o meio pelo qual atingir as glebas nas  margens do Liborio. Em conservar com os conhecedores da região, alguns dos quais remanescente da Cia. Mate Laranjeira, vim a saber que o objetivo seria atingir por uma estrada regularmente praticável com bom tempo o que, alias, não era o caso, 130 quilômetros ate o Liborio, distancia esta que seria coberta com “Arrais” mulas de carga, e abrindo caminho pela antiga e abandonada estrada ervateira, hoje completamente tomada pelo mato, alem de diversos cursos d’ água que teria de ser vencidos a vão, em razão da inexistência de pontes. Porem, o parecer unânime era de que se devia penetrar pelo porto São Luiz, no rio Ivinhema, daí passando por Amandina, pois, seria fácil e econômico, fazer ponto de abastecimento nesta localidade que distancia 35 quilômetros, mais ou menos, das glebas a margem do ribeirão Vitória, a ter como centro de abastecimento, a cidade de Dourados, distante 120 quilômetros, mais ou menos, da glebas do ribeirão Liborio.

            Aproveitando a ida a Dourados do piloto Hugo Simione, meu particular amigo, fiz um vôo de exploração sobre a região afim de localizar alguma via que de Amandina desse acessos as glebas. Em Dourados, posteriormente, tive a oportunidade de avistar-me com um engenheiro do Estado, que por lá passou em transito para o sul. Garantiu-me esse engenheiro, a existência de uma estrada desde Amandina ate as glebas, a qual certamente eu não vira durante os vôos de exploração, por ser uma via sinuosa que serpeava através das matas densas, e, cuja visibilidade vertical estaria prejudicada pelas copas da vegetação alta e frondosa. Mais tarde contatei a pouca verdade dessa afirmativa, como se poderá ver na continuação deste relatório. Nessa ocasião mandei a primeira carta, solicitando numerário cuja remessa não se faz demorar.

            Tendo resolvido, por julgar mais pratico tanto pelo aspecto técnico como econômico, fazer a penetração por Amandina, tomei a deliberação de deixar uma turma abrindo picadas no Liborio, enquanto dava a volta pelo porto São Luiz e, assim sendo, contratei três paraguaios que, segundo declararam, conheciam bastante a região. Fiz a cada um deles o adiantamento de dois mil cruzeiros para vinte dias e, em caminhão, levei-os ate o sitio Alencar, onde, com dificuldade, aluguei três mulas de carga, com as quais consegui, em quatro dias, alcançar o Liborio, limpando caminho e transpondo a vau os cursos d’água. Por termos chegado a noite, não foi possível acomodar as “Arrias” convenientemente, o que resultou, pela madrugada, a perda de um animal atacado por onça. Os picadeiros, aos quais entreguei uma corrente duplo-decametro, tinham ordem para, de um ponto que lhes indique a montante do ribeirão, abrir picadas para levantamento na margem esquerda água acima 5.200metros onde deveriam localizar um marco, o MP.I da Mataria Formosa. Encontrando que fosse, procurariam os vestígios de uma picada no nascente, a qual deveria ser avivente ate o Vitória. No caso de não ser encontrada a picada ou mesmo o marco, voltariam ao ponto de partida, de onde ficou bem claro, seguiriam abrindo caminho pela velha “carreteira” da Mate ate o Vitória, onde, em sua margem, começariam as picadas de levantamento ate a chegada do grosso da expedição por esse lado.

            Determinado assim o inicio dos trabalhos, regressei com o vaqueiro e as duas mulas restantes ao sitio Alencar, distancia que cumprimos em 2,5 dias. Ainda encontrei o caminho que utilizara, que aguardava um carregamento de milho, o qual, economicamente, aproveitei para regressar a Dourados.

            Tendo recebido a resposta da carta n-1 capeando o chefe que vossa senhoria mandara, apressei-me em adquirir mantimentos e contratar capataz, cozinheiro e mais quatro homens.

            Dia 21, em caminhão, conduzi pessoal e traia para o porto Brilhante, onde em duas barcas-motor previamente contratadas, embarcamos iniciando assim, as 12:45 horas local, a etapa fluvial Brilhante abaixo. Pernoitamos num local de barranco alto e enxuto, mais ou menos três léguas a montante da barra do rio Dourados. Dia 22, enquanto se preparava o “quebra-jejum”, desmontamos o acampamento provisório e, logo após essa refeição matinal, preparamos as barcas e continuamos a viagem nesse segundo dia em que fomos rudemente castigados pelas intempéries; ininterruptas e fortes chuvas acompanhadas de ventos, das 11 as 17 horas. Aportamos, já passadas as 18 horas, no local conhecido por “Comadre Pachi” pouco acima da confluência do rio Vacaria, nome tomado da moradora, uma viúva paraguaia, chefe de família ali residente. Tomamos a segunda refeição nesse dia, desde que não fora possível apoitarmos para o almoço, em virtude da tormenta. Assim terminamos o dia acomodando-nos para passar a noite no paiol e, alguns ao ar livre, pois, o tempo avia estiado.

            Dia 23, manhã sem chuva, porem, carregado e com teto a menos de 100, iniciamos bem cedo a decida para ganhar tempo, visto serem prováveis novas chuvas para o período da tarde. Já bem próximo a barra do Vacaria, o motor da barca que conduzia a traia, entrou em pane silenciando. Fomos obrigados a parar o outro motor para,também de rodada, podermos acompanhar de perto, a outra embarcação que se aproximava de uma corredeira perigosa, momento para um barco carregado. Duas horas após, reparado o motor, continuamos normalmente a viagem. Grande formação de cumulus-nimbus. Não apoitamos par almoço, fazendo a bordo o lanche com lingüiça seca, pão e  terere. As 15 horas, já navegando no Ivinhema, copioso aguaceiro desabou sobre a região. Meia hora depois, acossados pela tormenta, apoiamos em um pequeno porto na margem direita, onde reside com uma família o paraguaio Alsamendria, e ai jantamos e passamos a terceira noite. Dia 24 as 5,30 quebrando o jejum, continuamos a viagem Ivinhema abaixo com céu nublado, porem, sem chuvas. As 12:30 alcançamos o porto Angélica onde almoçamos. As 14:30 reiniciamos a navegação com o castigo, uma hora depois, de uma chuva fina que perdurou ate quase o anoitecer. Nas proximidades da confluência do Piraveve o nosso motor entrou em pane, não sendo possível repará-lo ate o termino da viagem. A vista do acontecido, mandei que a embarcação que conduzia a traia, continuasse afim de aproveitar ao maximo a luz do dia enquanto que, de rodada, prosseguimos ate o porto São Luiz onde, graças a Deus, chegamos sem mais novidades as 22 horas. Fui recebido pelo administrador do senhor SIRBO SIMÕES, com que combinei acomodação para o pessoal ate o momento da entrada no mato.

            No dia seguinte, após minuciosa sindicância cheguei a conclusão de que não eram “in toto” certas as informações dadas pelo engenheiro do Estado em Dourados. A via de penetração que é um antiga “carretera” construída pela Cia. Mate Laranjeira estava totalmente tomada pelo mato e as pontes rodadas.

            Evidentemente, a penetração iria ser uma operação penosa a vista do que, desde que ainda estávamos em local de relativo recurso, providencie o regresso a São Paulo do meu filho DÉLNI LUIZ que acompanhara-me como auxiliar, pois seria difícil a saída tão logo terminassem as suas férias. Já estava, porem, contaminado pela malária a qual eclodiu após sua chegada a esta capital.

            São raros,na localidade, trabalhadores nacionais. Contratei duas turmas de picadeiros paraguaios, e com o agregado Cachi Aveiro, da mesma nacionalidade, acertei o serviço de penetração com tropa de mulas e vaqueiros para a limpeza. O pagamento só seria efetuado no termino dos trabalhos , em Dourados, aos próprios ou a delegados por eles devidamente credenciados.

            O abastecimento ficou a cargo do senhor SEBASTIÃO VAZ DE MELO, paulista de Cafelândia e estabelecido em Amandina que, fidalgamente, no decorrer dos trabalhos, não só acudiu com o que tinha em estoque como, também adquiriu de terceiros muitos artigos afim de poder atender aos pedidos, sabendo de ante-mão que só receberia de ante mão no final do serviço, com cheque que seria enviado de Dourados ou São Paulo, como de fato foi. Do transporte das províncias ficou incumbido o mesmo paraguaio Cachi que, com duas “Arrias” faria viagens quinzenais.

            Estando tudo organizado, dia 28 cedo, com uma tropa de seis cargueiros, com uma prece a ele, iniciamos a marcha para sudoeste rumo Vitória.

            Foi, como fora previsto, uma etapa árdua; a antiga “carretera” completamente tomada pela vegetação foi aberta a “machete” pelos vaqueiros. Os cursos d’ água foram desobstruídos das tranqueiras para que as mulas, descarregadas, os transpusessem a vau. Fizemos o primeiro pouso na estiva e o segundo as margens do Novidade. Finalmente, dia primeiro de fevereiro as 18 horas, atingimos o ribeirão Vitória, o qual transpusemos iniciando logo a seguir a instalação do acampamento central, ao qual dei o nome de São Judas Tadeu, no ângulo formado por esse caudal e a velha “carretera”.

            Não tendo encontrado os paraguaios que deixara no Liborio 21 dias antes, mandei no dia seguinte a nossa chegada, dois homens pela “carretera” ate aquela água, para estabelecer contato. Estes, regressaram dois dias depois, achando apenas 400 metros de picadas. A hipótese de um acidente foi afastado, visto não ter sido encontrado ferramentas e mantimentos, admitindo-se logicamente;a fuga.

            Organizado o acampamento central, determinei a imediata abertura de picadas para levantamento das águas e busca do MP.I da ipê que corresponde ao MP.V da Mataria Formosa.

            Procedi a determinação da declinação magnética em um ponto, junto ao acampamento, onde foi plantado um marco de referencia com as seguintes inscrições sem suas três faces: Longitude 53-51 +/_ WHG. Latitude Sul 22- 24 +/- D.M   FEV: 1956 7- 26W. Altitude 310,000 +/-

            Só encontrei os marcos MP.V da Mataria Formosa que é o mesmo MP.I da ipê, MP.IV da Mataria Formosa que corresponde ao PM.II da ipê e o MP.II da Mataria Formosa. Das picadas, em divisas secas, somente a que liga esses dois primeiros marcos e, apenas, 450 metros dos 10.600 constantes da planta do Estado, do MP.II em direção de onde devia existir o MP.I.

            Dez dias após o inicio dos trabalhos, senti os primeiros sintomas da “maleita” que finalmente eclodiu em caráter maligno. Tendo sido encontrado pelo senhor Cachi, que produzia   primeira viagem com abastecimento, com febre de 39 Graus e em estado inconsciente,fui por ele levado em uma das mulas ate Amandina e entreguei aos cuidados da família Sebastião Vaz de Melo. Nessa casa fui cuidadosamente medicado e posto fora de perigo. Regressei ao trabalho oito dias depois, continuando o tratamento especifico.

            Não posso deixar de consignar, com a devida vênia, a minha gratidão a família Vaz de Melo pelos cuidados com que me cercou nessa emergência. Também ao amigo paraguaio Cachi que, alem da iniciativa de retirar-me do mato nessa ocasião, em outra, já no final do serviço, salvou-me novamente quando chegou no oportuno momento de desarmar o seu patrício Luí Valiente que emboscado alvejava-me de resolver, por questão de serviço. A esses amigos o meu mais sincero reconhecimento.

            Ao reiniciar o serviço verifiquei que o mesmo não estava tendo a desejada progressão em virtude do prolongado período de chuvas que, não obstante o natural inconveniente para as operações de campo, ocasionou o encharcamento das margens formado assim, extensão e largos “pindaibais”, dos quais muitos eram atravessados com água pela cintura. A vista da morosidade com que se processava a abertura de picadas e a dificuldade de uma eficiente fiscalização, resolvi alterar o critério adotado ate então, passando a dar as picadas por empreitas, para isso pondo em serviço mais duas turmas, conservando como diarista a turma do instrumento. Essa modalidade ocasionou a constituição de mais seis acampamentos auxiliares de empreiteiros, distantes de 5 a 25 quilômetros do central, cujo almoxarifado os abastecia pelo preço de custo, acrescido de uma porcentagem, de 5 a 10% para cobertura das despesas de transporte, contabilização etc. cada empreiteiro tinha a sua conta corrente onde era creditado o serviço medido e debitado o fornecimento.

            Em meados de março, todas as turmas empreitadas paralisaram os serviço com ameaça de abandono caso não fossem atendidos no aumento pedido de 50,00 cruzeiros por quilômetros de picada. Embora reconhecendo o absurdo da pretensão: 500,00 por quilometro, não houve outra alternativa senão a de aceder, pois, uma paralisação em tais circunstancia redundaria em maiores prejuízos.

            Foram levantados 36.078 metros de divisão naturais (ribeirão Vitória e Liborio), 28.921 metros de divisas secas, 13.600 metros de águas internas e 5.000 metros de “carretera”, perfazendo um total de 83.599metros, para cuja consecução houve a necessidade de se caminhar, mais ou menos, 350 quilômetros.

            Muitos dias antes da semana santa, a região foi assolada por continuadas chuvas, o que obrigou a completa paralisação dos trabalhos de mediação. Aproveitei esse tempo para, com os poucos conhecimentos que possuo de belas artes, esculpir em um pedaço de tora de carandá e com instrumentos improvisados, um Cristo crucificado que depois de pronto coloquei em uma capela recém construída de pau a pique e coberta com sapé. Isto, alem de satisfazer sentimentos religiosos, resultou em imediato efeito psicológico nos paraguaios que, sendo impulsivos, arruaceiros, são “ad usum” apegados a religião de tal modo que basta a presença de uma imagem para que se tornem mais respeitosos e obedientes.

            De conformidade com a progressão do serviço, tirou-se em pontos diferentes, dez amostras de terras que, em saquinhos numerados de 1 a 10, foram enviados afim de serem analisados em instituto agronômico. Na planta geral do levantamento, na parte demonstrativa da orografia e classificação das matas, encontram-se, assinalados com os respectivos números, os locais dessas coletas.

            Embora os serviços de abertura de picadas fossem atacadas em diversos pontos, foi primeiramente levantada a gleba ipê na seguinte ordem: começou-se no marco MP.I na margem direita do ribeirão vitória e daí com o rumo... 88- 54’ NW 3.050 metros, dividindo com a gleba mataria formosa, ate o MP.II, deste com o rumo 1- 06’ SW 10.006 metros, dividindo com Sadaji Fujisawa e Did Miguita ou sucessores, ate o MP.III na margem esquerda do ribeirão Liborio, descendo por este 8.494,30 metros ate sua barra no ribeirão vitória, e por este, água acima, 15.339,90 metros ate o marco inicial, MP.II e logo a seguir, a gleba mataria formosa na seguinte ordem: começou-se no marco MP.I na margem direita do ribeirão vitória e daí com o rumo 66- 06 SW 9.510 metros, dividindo com Gumercindo Montrezol e Tetuo Kavamura, os sucessores, ate o MP.II localizado na margem esquerda do ribeirão Liborio, e daí água abaixo 5.897 metros ate o MP.III daí com o rumo 60- 21 NE 6.355 metros, dividindo com José Vaz de Melo ou sucessores, até o MP.IV, e deste com o rumo 88- 54’ NE’ 3.050 metros dividindo com a gleba ipê até o marco inicial MP.I todos os detalhes técnicos dos levantamentos poderão ser apreciados nas folhas “elementos do campo” e “calculo de coordenadas”, no final deste relatório.

            Para a gleba mataria formosa, foi controlada a área de 4.803 Ht 67 a 26 cada ou sejam 1.984 alqueires e 23.926 metros quadrados, e, para a gleba ipê, 6.605 Ht 13 a 50 cada ou sejam 2.729 alqueires e 9.550 metros quadrados, totalizando portanto, 11.408 Ht 80 a 76 cada ou 4.714 alqueires e 9.276 metros quadrados.

            Finalmente, após bastante sacrifício conseqüente de fatores que não dependeram da vontade pessoal de quem quer que seja, mas tais como: mau tempo reinante, doenças, discórdia entre trabalhadores e outros, terminei o serviço de campo regressando a Amandina onde dissolvi a turma. Do porto São Luiz enviei a penúltima correspondência, e em caminhão do senhor Zirbo Simões segui para Dourados com traia e alguns homens. Nesta cidade, logo após ter-me comunicado como V.S chegou o senhor Vicente Bottarelli que, coma sua costumeira atenciosidade e presteza, efetuou o pagamento do pessoal. Regressei a esta capital logo em seguida.

            Em novembro, voltei as glebas com o fim de alargar para 2.5 metros a linha MP.I-MP.II da mataria formosa, preparando-a para receber cerca, substituir esses dois marcos que eram de madeira por outros de concreto armado, e proceder a colocação de placas.

            Essa viagem foi feita de Jeep, pois segundo informação do senhor Jacomo Calaresi Neto, a estrada de Amandina ao ribeirão vitória já estava construída, permitindo o trafego motorizado. No porto São Jose, no rio Paraná, embarquei o Jeep a bordo do vapor Don Thomaz da Cia. Mate, que subia para Presidente Epitácio com um carregamento de toras, desembarcando-o no porto Primavera. Deste porto prossegui passando pelas fazendas Primavera e Baile em ótimas estradas. Daí, com passagem pela fazenda gato preto, ate a balsa no porto São Luiz, e deste ate Amandina preparei as formas e ferragem armada para os marcos e confeccionei oito placas. Ali tive que deixar o jeep visto não corresponder a verdade a informação dada pelo senhor Jacomo Calaresi Neto, pois, de estrada sé existia um pequeno trecho ate as proximidades do santa rosa, e ponte nenhuma. Tudo mais, pior do que havia deixado.

            Mandei estivar cem metros no santa rosa que já não permitia a passagem de cargueiros mesmo descarregado. E novamente, com tropa de mulas, encetei viagem levando traia, cimento, ferragens e provisões, gastando no percurso dois dias com um pouso do ribeirão novidade. Árdua foi essa inclusão devido a inúmeros contratempos e incidentes,dos quais mais freqüentes foram as quedas dos animais motivadas por carga excessivas, tomando então, dispendioso este capitulo por haver inutilizado parte da traia, medicamentos etc.

            Foram necessários 11.000 metros de cargueiras por mim abertas para que atingisse, circundando pindaibais, os locais dos marcos MP.I e MP.II situados em ambos os extremos do picadão aberto com 2.5 metros de largura.

            Fim do serviço e a colocação das placas, regressei pela mesma via de acesso a Amandina, e daí com o jeep para São Luiz, onde, devido ao afundamento da balsa que ali fazia a travessia do Ivinhema, vi-me na contingência de, muito arriscadamente, cruzar o caudal em um pequena balsa improvisada para meu uso, com três botes atrelados, muito gentilmente cedida pelo senhor Zirbo Simões.

            Pelo mesmo caminho da ida retornei ate o porto Primavera de onde, quatro dias depois, a bordo de uma barcaça com gado, rebocado pelo santa rosa da navegação Moura Andrade Ltda., alcancei o porto São Jose, prosseguindo depois ate Rolandia onde cheguei no dia 17 de dezembro.

            Julgando interessante para um apanhado mais concreto passo a disserta sobre dados generalizados concernentes a região:

Geológico

            Esta região, comumente designada com região do Amambaí mas que, por força natural conseqüentes a acidentes geográficos, bem poderíamos chamar de região do baixo Ivinhema, esta situada entre os meridianos 53- 00’ e 55- 00’ WG os paralelos sul 22- 00’ e 24- 00’. É uma extensão beneficiada pelas erupções basálticas ocorridas no longínquo triassico. No estado do Paraná, momento na parte norte, também abrangida por este incidente geológico, o bombeamento, entre os arenitos e os folhelhos economicamente pobres, de preciosos elementos de riqueza sob a forma de lavas de basalto esta tendo os mais importantes reflexos na geografia econômica do país, pois é de lá que resultam, por decomposição, os melhores tipos do solo, que é o que vemos no norte daquele Estado. Para o lado de Mato Grosso, nessa mesma faixa de paralelos, a incidência basáltica entende-se, quase que de um modo geral, ate o termino do Planalto Maracajú abrangendo, portanto a analisando região do Ivinhema, onde, lamentavelmente, em muitos pontos, as lavas de diábase recém recobertas por camadas de arenite, não podendo assim, exercer em toda potencialidade, a sua ação enriquecendo sobre a posição química dos solos.

            Depois desta resumida e despretensiosa a generalização é mister se focalize, unitareamente, a área levantada que, em breve constituirá a fazenda Pedra Dura.

            Foi notada, nessa área, a influencia pluvial com relação ao solo. Nas cotas mais elevadas do divisor formado pelos caudais vitória  e liborio a camada de arenito é muitíssimo menos espessa que nas marginais a esses cursos, é evidente que as águas pluviais carream das partes mais altas quantidades de área depositando-as nas mais baixas, constituindo, assim, lenta transição. Manchas existem nos espigões onde o basalto aflorou a superfície decompondo-se em solo argiloso. Essas manchas são o que de melhor Mato Grosso possue e, no entanto, é comum ouvir-se freqüentes exaltações a respeito dessas terras comparando-as com as roxas de São Paulo. Deve-se ter mais prudência, pois há bastante diferença.

Hidrografia

            A área levantada é limitada a leste pelo ribeirão vitória e a oeste pelo ribeirão liborio, afluente do primeiro que por sua vez deságua no rio Ivinhema, tributário do caudaloso rio Paraná. O ribeirão libório recebe, dentro dessa área, diversas pequenas águas entre elas os córrego “Olvidado” e “Boy-Yagua”, a velocidade de sua correnteza é de 880 metros hora. O ribeirão vitória que, no seu percurso dentro da área, tem a largura media de quatro metros, recebe diversos tributários entre quais os córregos “Yguaretê”, “azul” e “Cavichu-í”. Em conseqüência da grande extensão da sua bacia hidrográfica, enche-se com grande rapidez, esvaziando-se com a mesma facilidade, graça a sua correnteza que tem a velocidade de 1.420 metros por hora.

Relevo

            Com auxilio de aneróide determinou-se diversas cotas, obtendo-se, assim, um relevo aproximado. As cotas, máxima e mínima são: 384,000 e 310,000 constituindo uma topografia levemente acidentada, notando-se pequenos enrugamentos na base do mássico.

Clima

            Não se tendo permanecido na região um período de tempo necessário, perigosa se torna uma afirmativa sobre ocorrências climáticas, todavia, tudo parece indicar que o clima local é o do tipo Gw, o que quer dizer, uma medida de temperatura no mês mais frio inferior a 18 graus centígrados. A região, a julgar pela sua situação, é sujeita a geadas, embora, segundo se pode observar, dependendo de fatores anemométricos ocasionais, que, provocando situações isobáricas e comumente permitindo ocorrências de nevoeiros, podem atenuar seus feitos. A evidencia dessa asserção é a existência em apreciável quantidade de “jaracatiá”, vegetação esta que não suporta três geadas consecutivas.

Vegetação

            Para efeito de classificação, foi a vestimenta vegetal dividida em três partes: mata baixa ou “catim” na faixa ribeirinha; mata alta no espigão e mata média como intermediaria das primeiras. Na mata baixa entre inúmeras espécies, destacam-se: na família das aqüifoliáceas, a erva-mate; na família das palmáceas apenas a espécie pindó e, na família das gramíneas a espécie Taquari, que predomina em abundancia.

            Na mata media foi encontrada, na classe da família das lauráceas, as espécies: canelão preto e canelão pardo.

            Na mata alta, destacam-se: na família das meliáceas o cedro rosa, cedro vermelho e cajarana. Na família das begoniáceas o ipê amarelo e ipê roxo. Na família das rutáceas as espécies marfim e laranjeira do mato. Na família das moráceas, e espécie figueira branca. Na família das Apocináceas, com apreciável quantidade, a espécie peroba rosada. Enfim, outros como: o cebolão, o guarita, guajuvira, viraró e ainda muitas espécies mais que, por serem e terem nomes regionais, não foi possível a classificação.

Fauna

            Das muitas e variadas espécies de animais existentes na região levantada, destacam-se na família dos cervídeos, o veado mateiro ou pardo, ainda chamado guatapará. As espécies Tatu-bola e Tatu-canastra.na família dos suideos, apenas a espécie cateto. Dos muitos representantes da família roedores, destaca-se pela quantidade, a espécie capivara. Na família dos tapirideos, em boa quantidade, a anta. Na família dos cavídeos, destacam-se: a paca e a cotia. Na família Procionídeos as espécie cotia. Também conhecido por mão pelada. Na família dos Mustelídeos a Irara. Na família dos canídeos, a espécie cachorro do mato. Nas famílias dos cebídeos e hapalideos há inúmeras espécies de macacos e sagüis, que, em vista da grande quantidade, deixou-se de classificar. Na família dos felídeos, as espécies onça pintada, onça parda ou suçuarana etc.

Aves

No reino alado, riquíssimo em espécies, pode-se notar entre outras, família dos Psitacídeas a arara azul ou arara uma, arara vermelha ou arara piranga e ainda diversas espécies de papagaios, periquitos, tuinas etc. das sub famílias dos conurinios, pionineos e outros. Uma única vez viu-se representantes da família dos Columbídeos, pombas da espécie “Columba’, julgando-se por isso sejam seres alongados ou migração. Já na família dos Peristerideos, viram-se muitíssimos bandos, diariamente de diversas espécies principalmente a “Leptotila” e “Zenaida auriculata”. Na família dos ranphastideos encontrou-se grande variedades de tucanos. Na família dos cracídeos a grande quantidade de jacus é explicada pela proibição da Cia. Mate Laranjeira, no tempo da sua concessão, de se matar essa espécie. E sabe-se que, a semente da erva-mate para que germine, precisa ser submetida a complexa preparação com potassa das cinzas etc. mas, os jacus ingerem grandes quantidades dessas sementes que depois da defecção germinam do mesmo modo.

Alem de nhambus, jaós, jacutingas, saracurvas, galinhas de bugre etc. notou-se muitas outras espécies de aves de rapina e notívagos. A quantidade de espécies canoras é enorme.

Répteis

Dos crocodilianos encontrou-se dois exemplos do conhecido por jacaré-papo-amarelo. Das famílias larcertilios, geconideos e iguanídeos, teve-se oportunidades de encontrar enumeras espécies de lagartos, lagartixas e camaleões. Entre as cobras encontradas, destacam-se : na família colubridae, a coral venenosa e a coral não venenosa. Das bothrops foram encontradas somente das espécies urutu, jararaca e em abundancia a jararaquinha do campo. Encontro-se um único representante da família boideos, uma sucuri, com 7,30 metro. Caninanas em grande numero. Apesar do empenho com que foi procurada não se viu uma única cascavel.

Batráquios

Em grande quantidade e variedades de espécies, destacam-se, pela singularidade, o sapo cururu e o sapo intanha.

Peixes

Ambos os ribeirões limítrofes, principalmente o vitória, são bastantes piscosos. Foram pescados exemplares das seguintes espécies: piracanjuba, piava, piavinha, bagre amarelo, lambari, lambari guaçú, mandi chorão, e, um único Dourado, pescado na confluência dos dois ribeirões.

Insetos

O numero de espécies e quantidades é enorme. Todavia, a maior atenção esteve voltada para os mosquitos, culicidios, e entre estes não foram encontrados transmissores da febre amarela, apenas e esporadicamente alguns transmissores da malaria, e muito da espécie comum.

É digno de registro, pelo tamanho do exemplar encontrado, um representante aracnídeo. Trata-se de uma aranha caranguejeira, com 22 centímetros de diâmetro médio, encontrada sob um pau apodrecido, nas proximidades do acampamento provisório n-4. 

 

 

Etnologia

Os rios Dourados e Brilhante, o primeiro a começar do porto Souza e o segundo do porto Wilma, e mais os rios Ivinhema, Guirai, Laranjaí, Amambaí, Maracaí e Iguatemi, sendo os três primeiros por observação própria e os demais por informações fidedigna, estão com suas margens pontilhadas de habitação rústicas,numa eqüidistância não inferior a quatro léguas, onde, na totalidade, resistiam com suas famílias velhos paraguaios remanescentes da Cia. Mate Laranjeira. Alguns exercem funções de posseiros para os proprietários das terras ribeirinhas e outros ali se estabelecem sem o prévio consentimento dos donos que embora sabiam, procuram,por conveniência, aparentar ignorância, cercando-se, contudo de certas preocupações. Vivem esses pirangueiros quase que exclusivamente da caça e pesca. Plantam feijão, arroz, milho, mandioca e abóbora apenas para o consumo. Engordam alguns suínos que transformam em banha que vendem, quase sempre ao mascate paraguaio Quinone, proprietário de um barco que procedente de Presidente Epitácio, sobre mensalmente o Ivinhema e parte do Brilhante, abastecendo essa população marginal de roupas, açúcar, sal e pinga, num verdadeiro intercambio comercial com a vantagem da ausência dos funcionários da fazenda nacional.

Todos os membros dessas famílias sofrem as conseqüências da malaria que, tratando-se do Ivinhema, é de caráter maligno, porem parece já terem adquirido auto resistência orgânica, pois não passam pela crise aguda, o que não aconteça com os indivíduos estanhos a região. No entanto, é pequeno o índice de mortalidade infantil, cujas vitimas são enumeradas no próprio local, sem preenchimento de formalidades legais, o que não acarreta complicação, visto não serem essas crianças registradas ao nascer.

São famílias numerosas. As mulheres casam-se muito cedo, ainda meninas e a conseqüência dessa precocidade, é a numerosa prole que vive num regime patriarcal. A expressão “casam-se” não esta bem empregada, pois tão realmente não sucede. É que ressentidos pelo isolamento, e circunstancias outras, os noivos e progenitores combinam o “modus vivendil”, e festejam o acontecimento. Daí por diante passam a viver em comum. Mas cada 4 ou 5 anos essas habitações são visitadas por frades missionários, casando os pais e batizando a prole. O registro civil continua ignorado.

É, também digno de nota nesses aglomerados, que demograficamente importante pelo numero existente, o fato de, as vezes com exceção do chefe, nenhum outro membro fala o português ou castelhano. Falam exclusivamente o guarani e assim mesmo, mal, porque esta língua por si já é pobre em recursos gramaticais, é deturpada e simplificada, formando com o tempo, verdadeiros co-dialetos.

Pontos existentes, como o porto Angélica, porto São Luiz, porto Gato Preto e outros, onde, graças ao estabelecimento, nesses locais, de organizações criadas por gente de São Paulo e outros rincões progressistas do país, estão surgindo núcleos que congregam heterogêneos agrupamentos de indivíduos procedentes de todos os quadrantes, formando assim, um possível caldeamento de raças que possibilitarão, quem sabe, a formação de um tipo regional.

Amandina, fundada por paulistas de Cafelândia e cujo nome é uma homenagem ao extinto desbravador Armando Simões, é um lugarejo em formação e hoje incorporada a Imobiliária Sul Mato Grosso Ltda. Apesar de estar sendo um ponto de convergência das atenções dos que procuraram novos campos de expansão, não deixa de também, como todos os lugares em formação, momento tratando-se de boca de sertão, ser local preferido pelos que tendo contas a ajustar com as autoridades jurídico-policiais, ali permanecem o tanto quanto as circunstancias lhes permitem. A inexistência de destacamento policial ou mesmo de uma autoridade, permite por parte destes elementos, e de inúmeros paraguaios que vivem nas cercanias, acintosa exibição de armas de todos os calibres, que por qualquer motivo, entram em ação. As vitimas destas arruaças são, geralmente, dadas sepulturas sem maiores formalidades. Alias, estes incidentes nada mais são que a continuidade do que era natural, no tempo que não vai muito longe, da concessão da Cia. Mate Laranjeira, quando era comuníssimo, segundo relatam seus remanescentes, mandar matar um trabalhador “fujão” ou “doente” que estava custando a sarar. Basta ver inúmeros cemitérios espalhados em pleno sertão.

Comunicação

As glebas 37 mataria formosa e 39 ipê que foram planimetricamente levantadas e que constituíram em breve a fazenda pedra dura, estão ligadas a Amandina por uma antiga carretera com 35 quilômetros, mais ou menos, construída pela Cia. Mate Laranjeira, no tempo de sua concessão. Esta estrada que, pelo abandono em que se encontra esta completamente tomada pelo mato, e com as cinco pontes destruídas, é o único meio de ligação com o porto São Luiz, no rio Ivinhema, que desta 18 quilômetros de Amandina. Será essa via reconstruída, correndo as despezas por conta de alguns proprietários adjacentes, e entre a fazenda pedra dura. Essa mesma velha carretera atravessa as glebas e continua em direção a cidade de Dourados, com 80 quilômetros nas mesmas condições, tomada pelo mato e sem pontes, ate o sitio Alencar, possuindo daí por diante 130 quilômetros praticáveis para caminhões, ate aquela cidade.

            O ribeirão vitória desde que seja limpo ate a sua barra no Ivinhema, dará entrada para pequenas lanchas ate o marco MP.I da gleba ipê.

            A Imobiliária Sul de Mato Grosso Ltda. Esta terminando no Ivinhema, o porto Amandina, que dista da cidade deste nome formação, apenas seis quilômetros em boa estrada. Da margem esquerda desse rio, essa Imobiliária esta construindo estradas, com termino na fazenda Baile, da firma Moura Andrade, pondo em ligação, portanto, com o porto Primavera desta firma, na margem direita do rio Paraná, onde será montada uma grande balsa para ligar, no pontal paulista, a cidade de Rosana que, por sua vez, ficara em ligação com Nova Londrina, no Estado do Paraná, através de outra balsa que esta sendo montada na barra do tigre, no rio Paranapanema.

            Ate o momento, a não ser esta via que liga o porto Primavera, só se tem saída para São Paulo pelo porto XV, através de precarissima estrada que, também, com grande volta, permite alcançar Campo Grande e Dourados.

            Era plano de anterior governo paranaense, incentivar o movimento no sul de Mato Grosso, facilitando o escoamento de sua produção pelo porto São João, onde, com simples balsas barcaças, alcançar-se muito facilmente o porto São Jose a sua frente, dando portanto a esses produtos um imediato centro consumidor, constituído pelo encadeamento das grandes cidades do norte do Estado do Paraná. Mas, a firma Moura Andrade ao organizar sua navegação e construir o seu porto, o Primavera, adquiriu extensa faixa marginal que veio abranger o porto São João o qual fechou, prejudicando desse modo, interesses comercial-economico desses dois Estados, cujos governos, pode-se dizer, descuidaram-se nesse sentido.

            O rio Ivinhema, francamente navegável é ainda o meio mais fácil e econômico para o escoamento de mercadorias procedentes dos portos desse rio,e também as que para eles se destinam.

            A estrada de Ferro Sorocabana já com serviço de terraplanagem no pontal paulista, prepara-se para transpor o rio Paraná, atingindo as imediações do porto Primavera. Sabendo-se que a meta visada por essa ferrovia é Ponta –Porá com passagem forçada por Dourados, percebe-se sem muito esforço a quase impossibilidade de uma diretriz Primavera Dourados, que em virtude da grande região pantanosa existente nesse rumo, viria onerar consideravelmente os trabalhos. Considerando-se, portanto, os fatores: terreno mais adequado, facilidade de combustível(lenha) e possibilidade de maior volume de cargas a transportar em ambos sentidos, percebe-se, sem dificuldade e levado pelo bom senso, que as paralelas de aço serão orientadas no sentido de alcançar a fazenda Baile, atravessando assim, uma zona de matas, de algumas lavouras e principalmente de uma pecuária em franco desenvolvimento. Daí com o conhecimento topográfico que se tem dessa região, conclui que a transposição do Ivinhema terá lugar entre os córregos São Pedro e Cel. Amando, nas proximidades de Amandina, desenvolvendo-se por esse espigão que é o divisor mestre Piravevê Vitória, passando portanto, não muito distante da fazenda pedra dura e alcançando o porto vitória no rio Dourados que, transpondo-o atingira a promissora cidade desse mesmo nome, em seu avanço para Ponta Porá onde fará conexão com o ramal internacional da estrada de ferro Noroeste do Brasil.

Produção Econômica

            Assim como o vertiginoso progresso do norte do Paraná é uma conseqüência da expansão paulista, também o sul de Mato Grosso, graças ao afluxo da raça bandeirante,que ressalvadas as devidas proporções evolutivas, transpondo todos os obstáculos, como os seus ascendentes, avançam sertão a dentro, fecundando virgens regiões e fazendo surgir novas fontes de riqueza para o país.

            Amandina, cidade em formação e em cuja periferia se encontra a fazenda pedra dura, sentia-se ate pouco mais de dois anos, tolhida em seus anseios expansionistas, pela deficiência de vias de comunicação com os grandes centros. Hoje, porem, graças ao preenchimento, em parte, dessas lacunas, alem dos sítios e chácaras que estão surgindo a sua volta, constituindo autentico cinturão verde, contra hoje com varias casas residenciais, três comerciais, hotel, escola, serraria, maquinas de beneficiar arroz e uma olaria que já deve ter iniciado sua produção.

            A erva-mate, uma grande fonte de renda, é nativa e abundante nessa região, dela sendo colhida uma pequeníssima parte nos lugares de fácil acesso, e que é vendida a Cia. Mate Laranjeira, que a recebe em diversos portos. Encontram-se ai as melhores espécies do gênero “Ilex”, cuja analise, segundo relatório da Comissão de Planejamento da Produção, acusa o seguinte resultado: água 6,79%, cafeína 0,88%, tanino 9,59%, cinzas 6,00% e extrato aquoso 36,66%. No entanto, a exploração ainda se processa rudimentarmente. É a avoenga técnica indígena, “piorada” pelos jesuítas. Cortam a erva profundamente, atingindo o ponto em que dificulta a regeneração, retardando assim, novas colheitas. Esse procedimento é imperdoável e evidencia outro descuido do Governo, que tem como órgão controlador o Instituto Nacional do Mate.

            Lavouras de cereais aparecem nas grandes clareiras que surgem após as derrubadas, tendo sido no ultimo ano, bastante animadora a colheita de arroz, feijão e milho.

            O senhor Massaó Ogassawara, residente em Londrina, liberando um grupo de outros nipônicos e “niseis”, adquiriu seis glebas: as de n- 6 a 11, da divisão “região do Ivinhema”, ai constituindo a Sociedade Agro Pecuária Jaú Ltda.

            O gado suíno esta representado por magnífico plantel no sitio Lambary. Do bovino, conta-se atualmente com mais de 2.000 cabeças de cria, distribuídas em 1.600 alqueires de invernadas já formadas, nas fazendas: “Itapoá” do senhor Zirbo Simões no porto São Luiz; “Santista” do senhor Zeumo Simões, vizinha aquela, e, “Zai” do senhor Oswaldo Takiushi Fujiwara no porto Zai.

            Conta a região com 440.000 pés de café entre um e três anos, estando, no momento, sendo preparado terreno para o plantio de mais.

            Espera-se muito deste pedaço do município que mais prospera no Estado de Mato Grosso. Dados fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mostram que, em arrecadação, nestes últimos cinco anos, o município de Dourados ultrapassou os de Miranda, Aquidauana, três Lagoas, Ponta Porã, Cuiabá e Corumbá, tendo-se como certo que em 1957 assumira a liderança, ultrapassando, também Campo Grande.

            Note-se a produção do município de Dourados no qüinqüênio 1950/1954, considerando-se o primeiro e o ultimo ano:

            Arroz em casca: em 1950, 67.500 sacos e em 1954 174.000 sacos, 1,8% da produção do Estado.

            Feijão: em 1950, 14.400 sacos e em 1954 24.000 sacos, 5.4% da produção do Estado.

            Milho: em 1950, 208.000 sacos e em 1954 245.000 sacos, 14,5% da produção do Estado.

            Algodão: em 1950, 117.000 arrobas e em 1954 2.250.000 arrobas, 64,2% da produção do Estado.

            Amendoim: em 1950, 19.000 quilos e em 1954 63.000 quilos, 23.3% da produção do Estado.

            Batata: em 1950, 700 sacos e em 1954 1.660 sacos 33,0% da produção do Estado.

            Cebola: em 1950, 1.800 arrobas e em 1954 2.000 arrobas 20,0% da produção do Estado.

            Mandioca: em 1950, 8.000 toneladas e em 1954 43.000 toneladas, 15,6% da produção do Estado.

            Laranja: em 1950, 58.000 centos e em 1954120.000 centos, 10.7% da produção do Estado.

            Gado: em 1954, existiam no Estado 4.700.000 de bovinos, cabendo ao município de Dourados 60.000.

            Café: segundo dados coligidos nos relatórios do Instituto Brasileiro do Café, os cafeeiros existentes no Estado em junho de 1954, montavam as 15.928.000 pés, cabendo ao município de Dourados, 5.903.600 pés, então 36,7% de existente no Estado. Já em junho do ano seguinte, 1955, o Estado contava com26.785.000 pés, cabendo ao município de Dourados, 8.400.000, montando 31,3% do que possuía o Estado. Porem, convem notar que neste ano houve o desmembramento de Itaporã que integrava o município de Durados, figurando no quadro estatístico com 4.000.000 de cafeeiros. Não fora isso, Dourados figuraria com 12.400.000, isto é, 46,2% da produção do Estado.

            Dourados que recentemente teve o seu território diminuído, com o desmembramento de Itaporã, esta sujeita a, muito em breve, sofrer novo fracionamento. Desta vez com a eventual elevação a categoria de município, da promissora cidade de Vila Brasil, na margem do rio Dourados, que vem progredindo aceleradamente.

            Anexando a este relatório os “elementos do campo”, “calculo de coordenação”, planta e os meus prognósticos de crescente progresso, dou por encerrado este trabalho, onde julgo ter empregado o melhor dos meus esforços e boa vontade. “Fines coronat opus”.

            São Paulo, 7 de março de 1957

            Atenciosamente.        

 

 

AUTOR DESCONHECIDO.

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